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Videogames e Brasil - Uma relação complicada

Após a saída da Gaming no Brasil, a Nintendo ficou sem uma distribuidora oficial e chamou atenção para como o modo como as empresas tratam o mercado brasileiro de jogos. Muitos atribuiram a saída da Big N a ela própria própria, outros aos impostos, à Dilma, ao cachorro da esquina (sério galera, para)… Porém, o problema é muito maior ao analisarmos a história dos consoles no Brasil, vendo que todas as empresas passaram por empecilhos ao atuar em território nacional.

Videogames sempre foram caros

Embora seja complicado estabelecer um parâmetro para comparação de preços de consoles antigos por diversos fatores, como barateamento de produção, mudança na economia, podemos fazer uma comparação simples só para termos uma noção de como era algumas coisas décadas atrás. Além disso, a economia brasileira era instável nos anos 90 a ponto dos valores mudarem de um dia para o outro. 

Existe um artigo interessante do Estadão que faz uma comparação baseado no preço dos jornais. Por mais que não seja precisa - o próprio artigo comenta isso - é bem legal para ter uma noção melhor.    

Ahh…. as propagandas……….

Nos jogos, o preço alto também persiste. O senso comum diz que jogos de console são taxados como jogo de azar. Após muita pesquisa, não consegui encontrar uma fonte confiável afirmando isso - até porque, não faz muito sentido, uma vez que bingos e cassinos são proibidos aqui. Antigamente até enquadrariam pelo fato de ser uma coisa nova por aqui - o mesmo efeito que acontece com drones e Netflix atualmente - e pelo fato dos primeiros jogos serem os fliperamas, usando um mecanismo parecido com jogos de aar O preço alto surge pelo fato de serem importados, algo que não acontece com os jogos de pc em sua versão física, que são produzidos aqui no Brasil. No caso de versões digitais, como o Steam, não tem como taxar um software digital, ainda mais sendo de outro país (a própria Valve estabelece o preço), então eventuais pequenas taxas de conversões são efetuadas no próprio BoaCompra (não é possível comprar diretamente no Steam).

Lançamentos problemáticos - Algo que não é de hoje

A chegada dos consoles no Brasil sempre significou problemas e todas as companhias enfrentam problemas na hora de lançar algo. Nem é necessário comentar dos preços desproporcionais dos consoles de geração atuais para lembrar do quão problemático é.

Muitos consoles não chegaram a serem lançados oficialmente no Brasil. Um dos motivos que o Playstation 1 e o primeiro Xbox não deram as caras por aqui foi a facilidade de piratear os jogos - geralmente, as empresas fabricam um console perdendo dinheiro por unidade, valor que é recuperado com a venda de jogos. No caso do Brasil, as empresas só teriam prejuízo, uma vez que ninguém iria obter jogos originais. No caso do console da Sony, um fato curioso: Outro fator que não colaborou com a chegada do concorrente do 64 foi que a Gradiente era dona do nome “Playstation” no Brasil. Anos depois, o nome foi cedido para a companhia japonesa.

Quando são lançados em tempo, vem junto os problemas. O Wii foi lançado no mesmo dia que nos Estados Unidos, porém com um preço de R$2000 (a versão americana custava US$250, cerca de 600 reais). Os outros consoles da Sony chegaram oficialmente no Brasil, porém com um pequeno atraso: O PS2 chegou em 2009, 9 anos depois de seu lançamento e o PS3 em 2010, 4 anos depois. Os preços também não eram tão atraentes: PS2 chegou por R$800 e o PS3 por R$2000, quando era fácil achar por R$400 e R$800 reais em mercados paralelos.

 Dublagem e tradução - Quem realmente está se importando?

Com o 3DS e Wii U com opção de português, as esperanças de ver um jogo na língua tupiniquim cresceram, porém não foram correspondidas. Enquanto isso, Microsoft e Sony têm vantagem, com seus menus em português, jogos traduzidos e dublados na nossa língua. O fato dessas empresas atuarem no Brasil em outros ramos dão a vantagem de conhecimento em nossa língua.

Ainda assim, esse processo está muito longe do ideal. Fiz uma série de perguntas ao nosso diretor de localização Samir Fraiha, o Twero, referente ao processo de traduções e dublagens dos jogos e a dificuldade que tudo isso envolve. Veja:

SkSonicSk: Bem, eu não tenho conhecimentos na área, mas pelo português não ser um idioma tão falado em relação aos outros, deve ser mais caro o processo de dublagem. Tanto que algumas dublagens são realizadas lá fora.

Twero: É um caso curioso, ainda mais que alguns anos atrás isso era feito a torto e a direito. Algumas empresas terceirizavam, outras faziam em seus próprios estúdios e sem uma pesquisa de mercado devida. O resultado disso foi que eles não sabiam que o público estava acostumado com a dublagem de filmes e de desenhos e começaram a fazer por conta própria. Daí isso surgiu umas pérolas como dublagens feitas pelos estúdios de lá, com vozes que nunca ouvimos, algumas traduções estranhas, entre outros...

SkSonicSk: O fato da Nintendo trabalhar apenas com jogos de console dificulta um pouco sua entrada, ao contrário de empresas como a Sony e a MS. Até a Blizzard tem um pouco mais de facilidade pelo fato de trabalhar com jogos de computadores. Isso ajuda a essas empresas a ganharem vantagem?

Twero: Sim, essas empresas estão há mais tempo no mercado brasileiro e conhecem melhor o público, como no caso da Microsoft e da Blizzard. Isso resultou em chamar dubladores de TV profissionais para dar voz à alguns de seus jogos, bem como uma tradução mais fidedigna. Ao mesmo tempo, é vendo, por exemplo Halo 4 e Injustice que vemos não só como o processo de gravação de voz ocorre tanto aqui, como as vezes é nos Estados Unidos: eles gravam sem um recurso visual.

SkSonicSk: Então mesmo tendo essa facilidade, o trabalho é diferente. Poderia comentar um pouco mais sobre?

Twero: A face que um dublador brasileiro está acostumado dublar seguindo uma cena, os americanos geralmente dublam trechos de diálogos somente, com algumas observações e com instruções a seguir. Mas há uma diferença entre os dois países: os americanos AINDA VÃO inserir o aúdio no jogo, então podem moldar a movimentação labial da cena para caber no audio, ou até mesmo pedirem para regravar. Aqui não, aqui a cena está feita, o jogo está feito, a voz precisa se encaixar, mesmo que o dublador não tenha o recurso visual o que ocasiona em atuações um pouco "mortas", com o dublador precisando se virar com o pouco que lhe oferecem. Mesmo que sua voz e sua experiência sejam inegavelmente superiores a dublagens de estranhos, ainda não se iguala a de filmes, salvo raros jogos que conseguem essa proeza.

SkSonicSk: Agora quanto a tradução de jogos, existe uma impressão que de ser mais simples por se tratar só de texto, mas imagino que não seja assim…

Twero: Sobre a tradução de textos, a gente recai no ponto mais profundo e de programação do negócio. É importante avisar que, no geral, jogos para serem traduzidos tem MUITO, mas MUITO texto pra ser traduzido: milhares de palavras, divididos em diálogos e para cada caixa de texto que aparece no game, aparece no script do jogo. Além disso, não é apenas texto, como se traduz um livro ou traduzir legendas, há códigos da programação do jogo, códigos que servem para, por exemplo, deixar o texto em determinada cor, se referir ao nome customizado do(s) personagem(ns) e quando o texto entra e o espaçamento do texto no jogo. Em geral, traduzir o script do jogo é um trabalho herculeano, geralmente requerendo um grupo de tradutores e com alguns manjando de programação para que o texto traduzido apareça naturalmente no jogo.

SkSonicSk: Por fim, parece piada mas… Eu acho que os jogos de futebol, Fifa e PES, são os melhores localizados. Sério! Os dubladores são conhecidos,  há os times brasileiros, gritos de torcidas, no caso do jogo da Konami existem até estádios brasileiros…

Twero: É um caso interessante, visto que tanto a EA como a Konami também estão cientes do público-alvo difere dos demais jogadores. São apaixonados por futebol, que assistem jogos pela televisão sempre que podem e estão mais familiarizados com os narradores da TV. Tenho só que elogiar a percepção que as empresas tiveram ao traduzir e a chamar locutores famosos para ajudar na divulgação e na proliferação dos jogos de futebol no país do futebol. Mas, em seu cerne, o que eles fazem é algo que deve servir de exemplo: conhecer o público brasileiro, o tipo de dublagem que eles adoram e que buscam traduções tão boas quanto os textos originais. 

Lojas virtuais - Estamos quase lá

Se existe alguma coisa próxima do ideal são os serviços digitais de videogames em geral. A PSN e a Live funcionam normalmente no Brasil, além do eShop do 3DS. Infelizmente, ainda não existe uma previsão para a loja do Wii U.

Vale lembrar que o eShop brasileiro foi disponibilizado na mesma data americana. A PSN chegou apenas em 2011, enquanto a Live chegou em 2010. Ambas as lojas já estão disponíveis nos seus consoles de nova geração, além de contarem com o serviço de mensalidade.

No seu lançamento, os preços eram altos e a disponibilidade de alguns produtos eram limitadas, porém com o passar do tempo, os preços foram se normalizando e os produtos parecidos com o que estão em todas as lojas. No eShop, a maioria dos preços ainda continuam altos, praticamente o mesmo valor dos preços físicos.

Todos nós perdemos

Não é só a Nintendo. Todos sabem que os negócios são complicados e que os próprios diretores das empresas reconhecem isso e as formas alternativas que seus consumidores usam para conseguir os produtos . Ao comentar sobre o preço de 4mil reais do PS4, Mark Stanley, vice-presidente e gerente geral do Playstation na América Latina disse “Muitos consumidores brasileiros são forçados a viajar para comprar produtos no exterior por um melhor preço. Sabemos que muitos farão isso. Parte da nossa missão é dar a todos acesso a estes produtos nas suas lojas e não descansaremos enquanto não fizermos isso”.

É uma realidade muito estranha para outras pessoas que estão em outros países. Claro que tudo isso não é uma justificativa para a saída temporária da Nintendo aqui, mas são fatores. Acho, inclusive, que a empresa poderia tentar mais aqui dentro, visto que a pirataria diminuiu em razão das novas mídias e o preço do Wii U é o mais barato em relação aos da concorrência, além de, claro, ser a Nintendo. Seus jogos e personagens são reconhecidos por todos, até por quem não joga videogame.

Foram dados passos lentos aqui no Brasil para uma distribuição de jogos e consoles de uma forma mais justa. É devagar, mas estamos caminhando para frente. Resta agora torcer para que tudo isso tenha uma solução e não precisemos viver numa espécie de clandestinidade caso queiramos pagar preços justos.

Em tempo: Eletrônicos caros e a desigualdade social - O buraco é mais embaixo, via GAMESFODA

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