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A suposta síndrome de Peter Pan nos videogames

Este artigo teve como base o texto “A Crise da Adolescência dos Video Games”, disponível no site GAMESFODA

Anualmente, acontece, em Las Vegas, a D.I.C.E. - Design, Innovate, Communicate, Entertain -, uma série de palestras onde produtores de jogos discutem diversos assuntos, como inovações nos gamedesigns e a direção da indústria. Na edição de 2013, uma das palestras que mais chamou atenção e causou repercussão foi a de David Cage, fundador da Quantic Dream, que produziu os famosos jogos Heavy Rain e Beyond: Two Souls. O título de sua apresentação era “Síndrome de Peter Pan: A indústria que se recusa a crescer”. Você pode ver a apresentação completa no YouTube.

O que Cage mostra na sua apresentação são os jogos mais vendidos de todos os tempos, mostrando que há somente Marios, Pokémon e Call of Dutys nesse ranking. Depois, critica esses jogos voltados para uma audiência infantil, dizendo que são sempre repetitivos e não tratam de nenhum tema da sociedade, fazendo com que pessoas mais velhas se afastem. No final, ele sugere que jogos deveriam aprender com o cinema a parte de contar histórias, falar sobre temas diversos, permitir a liberdade criativa dos diretores, fazer jogos para todos e eliminar situações na qual o jogador necessita dominar um sistema. Tudo isso futuramente faria a indústria de jogos uma coisa bem melhor do que é atualmente.

A contradição do próprio "caos"

Alguns pontos que o diretor citou sobre a mudança de paradigmas de jogos e a liberdade criativa são válidos. Nesse caso, a maioria das empresas são um pouco mais inflexíveis, fazendo com que saiam produtos lucrativos, não necessariamente bons - o que é, infelizmente, compreensível, pois é uma indústria e ela precisa de dinheiro. Mas todo o resto que ele diz é um enorme exagero sem sentido nenhum.

Não dá para entender essa espécie de preconceito com jogos como Mario e Pokémon. Afinal, o que há de errado com eles? Só porque não são algo complexo e para reflexão, que eles não tem um grande valor? Por mais que possam parecer repetitivos, sempre haverá algo novo para chamar a atenção e melhorar a experiência (como citei em outro texto) e não é à toa que esses títulos vendem bastante, mesmo após vários anos no mercado.

Essa crítica de David é curiosa, uma vez que ele pede por jogos que todos possam jogar - ao mesmo tempo que pede temas mais complexos. É algo meio controverso, até porque é bem difícil fazer um produto final que seja profundo e simples, como Journey ou Mother e tantos outros que são praticamente excessões em relação ao número de games existentes. Jogos mais simples servem como porta de entrada para outros jogos, por isso têm uma grande importância. No caso dos títulos da Nintendo, a própria Sony reconhece a importância desses ao dizer que uma eventual falência da rival significaria problemas, uma vez que ela faz com que os games sejam introduzidos para as pessoas.

Podemos até traçar um paralelo com o cinema, indústria que o próprio Cage admira. Basta vermos as maiores bilheterias. A maior parte dos filmes são de aventura, recheados de efeitos especiais e com uma história mais simples. São poucos os filmes admirados pela crítica especializada que aparecem na lista. Então, esse fenômeno não é exclusivo da indústria de jogos.

A errônea classificação infantil

Muitas obras são classificadas como infantis. Acontece que isso ocorre de uma forma pejorativa, pois muitas pessoas acreditam que elas não possuirão nenhum valor e que são somente histórias bobas. Esse problema é tão grande que, no Oscar de 2014, a maioria dos membros da Academia deixaram de votar para o melhor filme animado - com um deles dizendo que havia deixado de ver filmes desse tipo aos 6 anos de idade.

Mas quem assiste sabe que a realidade é bem diferente. Basta observarmos as produções de grandes estúdios que fazem filmes (teoricamente) voltados ao público infantil, como a Disney, a Pixar e Studio Ghibli. Os filmes produzidos por esses estúdios têm grande reconhecimento pelo público infantil e pelos adultos, pois não são feitos para um público segmentado,. Basta assistir filmes como Up! (menção honrosa aos 4 minutos que contam a história de Carl e Ellie) ou Princesa Mononoke para ver que são filmes excelentes - por mais que você não seja uma criança.

Além disso, muitas pessoas consideram que a mente infantil é incapaz de diferenciar um bom filme de um ruim, gerando esse preconceito. Isso é um comentário totalmente inválido. Além disso, basta reassistir a um filme que gostava quando criança, como Rei Leão ou Toy Story. O filme continua excelente mesmo depois de décadas do lançamento - e não é por nostalgia.

Jogos sobre tudo para todos

Em uma indústria cada vez mais dominada por shooters, é bastante natural querer jogos que abordem diversos tipos de temas. Na E3 desse ano, o que mais chamou atenção foi Splatoon, aquele jogo da Nintendo onde você joga com lulas e vence quem pintar mais o terreno. É um shooter, ainda assim, mas com uma temática totalmente diferente dos militares que estamos acostumados - mostrando que dá pra fazer muita coisa diferente e bacana nesse gênero.

Acontece que Splatoon não é o primeiro jogo que tem uma abordagem diferente, como Cage deseja. Existem muitos jogos que já falam sobre temas totalmente diferentes - embora alguns sejam reconhecidos e outros não. Temos Mother, um RPG que fala sobre a sociedade contemporânea; temos Metal Gear, um jogo de espionagem onde o tema principal é a política e guerra; temos Ico, um adventure que mostra a história de um garoto e sua companheira.

Nós temos vários estilos de jogos excelentes. É claro, eles não são o suficiente, mas acabam influenciando outros produtores e a tendência é que tenhamos abordagens de vários outros tipos de temas.

No fim, por mais que abordem diferentes assuntos, esses títulos são divertidos. Um jogo não é bem recebido apenas pela sua história, mas sim pelo conjunto completo da obra, afinal, são feitos para nosso entretenimento. E não é à toa que Mario e Pokémon estão no topo da lista abominada por Cagel: Pokémon, por exemplo, não tem telas de game over, o jogo sempre levará para o último centro que passou. Nos Marios mais recentes, caso o jogador perca muitas vidas sem sequências, o jogo dá itens extras para que ele consiga terminar a fase com facilidade. Por outro lado, existem jogos como Super Meat Boy que são extremamente difíceis, onde o jogador morre diversas vezes durante o progresso. A semelhança é que as histórias deles são relativamente simples e são focados no gameplay. Não há problemas em fazer jogos com menos gameplay e maior foco na história, como Cage sugere. Se não, as pessoas não gostariam de visual novels ou dos jogos da Telltale. O problema é a execução: se algo alí mais lhe incomoda e lhe deixa monótono do que lhe diverte, é que há algo de errado.

Não existe um jeito certo de fazer jogos, como Cage afirma. Pelo contrário - defender a liberdade criativa é querer que eles sejam cada vez mais diferentes um do outro. A indústria de jogos tem muito o que aprender, mas acredito que estamos seguindo no caminho certo para chegar a um ponto ideal para quem produz e para quem consume. E esse ponto ideal é bem diferente do que Cage idealiza.

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