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Zelda e a noção filosófica de corrupção – Parte II

A corrupção nos jogos eletrônicos

Continuando de onde paramos no último artigo (clique aqui para lê-lo, caso você ainda não tenha), iremos analisar nessa segunda parte a influência da corrupção nos jogos eletrônicos, sendo mais especifico do que abranger a cultura geral ou a noção do conceito em si. Recapitulando rapidamente, é importante termos em mente que a corrupção nem sempre significa necessariamente algo negativo embora tenha assumido essa mudança com o passar dos anos, mas apenas a simples mudança de características originais de algo ou alguém.

Tendo isso em mente, o que God of War, The Legend of Zelda, Devil May Cry, Injustice: Gods Among Us, Darksiders, Mortal Kombat e tantos outros têm em comum? Simples, a existência de personagens que nos são apresentados de uma forma e que durante o jogo desenvolvem características ou posições completamente diferentes e opostas, sendo, portanto, corrompidos ao longo da experiência. Se temos personagens que se corrompem em qualquer exemplo de cultura e arte, não poderia deixar de ser diferente com os videogames. Muitas vezes essa ideia de corrupção acaba sendo essencial para o enredo funcionar, sendo crucial a mudança de personalidade de uma figura para que a história ande.

Devil May Cry talvez seja um dos melhores exemplos da essencialidade que a noção de corrupção atinge para a trama. Em Devil May Cry o irmão do protagonista, Vergil, acaba sendo completamente corrompido ao abraçar, ao contrário de Dante, o seu lado demoníaco (ambos são gêmeos filhos de um demônio com uma humana, ou com uma anjo, no caso do reboot de 2013). Logo no primeiro jogo da franquia lançado em 2001 já o vemos transformado em uma espécie de cavaleiro demoníaco sem vontade própria, controlado pelo antagonista principal, Mundus. E no terceiro jogo é explicado como isso acontece. Após perder a batalha final contra seu irmão, Vergil é aprisionado no mundo dos demônios e, ao que tudo indica, lá trava uma batalha contra Mundus e é derrotado, sendo completamente corrompido por ele.

No reboot da série lançado em 2013 a corrupção de Vergil também se mostra presente, no caso no final do jogo. Após vencerem o antagonista Mundus com seus esforços reunidos, ambos os irmãos acabam por discordar sobre qual o caminho que a humanidade deveria tomar dali em diante e acabam entrando em um violento conflito físico. Vergil é derrotado por Dante, que por si próprio acaba quase corrompido pela raiva e por muito pouco não assassina seu próprio irmão, sendo acalmado pela aliada de ambos, Kat, uma humana. Vergil, humilhado e ferido, abre então um portal e foge, não sem antes demonstrar toda a sua desilusão com seu irmão. E a história acabaria aí, sem mostrar completamente a mudança do novo antagonista, se não fosse por um DLC lançado depois do jogo e chamado de Vergil Downfall cujo nome, para quem entende inglês, já da uma enorme dica do seu conteúdo.

O jogo com os personagens da DC Comics, Injustice: Gods Among Us também merece ser mencionado pela sua importância na forma como abrange o conceito. Na obra, Superman é levado a loucura pelo Coringa (aquele mesmo, vilão do Batman) por uma mistura de kryptonita com o gás do medo do Espantalho e acaba, sem querer, assassinando sua própria esposa grávida, Lois Lane, ao confundi-la com o vilão apocalypse. Completamente quebrado e mentalmente destruído, o personagem surta, assassina o Coringa e começa uma ditadura, reinando como soberano autoritário por todo o mundo, ajudado por grande parte dos outrora heróis em uma espécie de distopia que lembra uma versão super-heroica do 1984 de George Orwell.

Não há exemplo melhor de corrupção do que essa história. Aquele Superman de antes, marcado por virtudes, por uma personalidade calma e um código ético-mortal que o humanizava, apesar de todos os seus imensos poderes, acaba por se tornar um ditador cruel que, em determinado momento do jogo, até assassina seu próprio amigo (Shazam, ou Capitão Marvel, para os antigos leitores dos gibis) apenas por discordar dele. O personagem muda completamente torna-se um simulacro de si mesmo, uma sombra do que outrora fora. E o pior, nem sequer faz isso por mal, já que em sua cabeça essa é uma situação melhor para o mundo (vale destacar o paralelo que o jogo faz com algumas das obras distópicas mais famosas como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, onde a liberdade praticamente inexiste, porém por outro lado problemas sociais como a violência urbana também não, assim como no jogo).

Mas The Legend of Zelda talvez seja, de todas as franquias já criadas nos jogos eletrônicos, a que maior tem influência sobre o conceito de corrupção. Por ser uma das séries mais antigas e influentes do videogame, Zelda acabou usando diversas vezes o conceito, de formas diferentes.

Um panorama da corrupção em Zelda

O mais incrível de The Legend of Zelda é que a franquia consegue usar, em diferentes épocas, em diferentes jogos, praticamente todos os significados possíveis para o termo. Você pode encontrar desde a corrupção estatal até a corrupção moral nos jogos, sem descartar o simples significado original da ideia. E tem sido assim ao menos desde 1987 com o lançamento de Zelda II: Adventure of Link. Embora neste jogo a noção do conceito seja aplicada de forma relativamente sutil, com a corrupção se manifestando sob a forma de um príncipe influenciável que acaba por colocar a própria irmã em sono profundo, em jogos futuros essa ideia seria explorada com muito mais afinco, com a criação de personagens e até realidades paralelas dominadas pela decadência e modificadas de suas formas originais como, por exemplo, Dark Link, Dark World e Lorule.

Não há exemplo melhor de corrupção do que Dark Link. Este personagem único representa a antítese do herói, seu oposto. Não há exatamente um consenso sobre sua origem, apenas teorias e especulações de fãs. Na primeira aparição do doppelganger, em Zelda II, entende-se nas entrelinhas que Dark Link representaria a superação, o lado negro no coração de Link que ele precisa superar para completar a Jornada do Herói (Monomito). Sua aparição seguinte, em Ocarina of Time é, porém, ainda mais misteriosa e complexa, sendo motivo de discussão entre os fãs até hoje sobre o que realmente está acontecendo naquela sala espelhada.

Em Ocarina of Time Link encontra seu oposto no meio do tão odiado Water Temple e protagoniza uma das cenas mais icônicas da série. Em uma curiosa sala alagada o jogador encontra o personagem, agora relegado a um mini-boss do templo. A aparição de Dark Link neste jogo, porém é mais misteriosa do que no anterior e quase nada sobre ele foi confirmado, sendo praticamente todos os comentários feitos sobre o momento nada além de pura especulação. Entretanto parece bem claro a intenção que a Nintendo tinha ao colocar uma sala com reflexo justamente no duelo entre o protagonista e o seu lado sombrio. Nada mais belo do que enfrentar um simulacro distorcido do seu personagem justamente em uma sala de reflexos.

 

Existem diversas teorias sobre o que exatamente poderia ser aquela batalha, inclusive não é absurdo se questionar sequer se é uma luta real ou algo acontecendo na cabeça do herói. Uma das teorias mais interessantes aponta que o simulacro não seria sequer real, mas uma projeção do próprio inconsciente do protagonista. Uma forma do inconsciente, revoltado com o fato do herói ser constantemente bombardeado por tarefas e responsabilidades que ele nunca escolheu seguir, fazer o seu lado consciente parar de se importar tanto. Uma batalha épica não entre o “bem” e o “mau”, mas entre o consciente e o inconsciente. O lago espelhado seria um exemplo disso, uma forma de mostrar o outro lado, as duas pessoas em uma só, retratar que Dark Link é uma personalidade do próprio Link e não um ser diferente e a parte, o que é reforçado pela frase de Navi antes da batalha, na qual ele diz para o protagonista superar a si mesmo. Mas, novamente, isto é apenas uma teoria e não há nenhuma confirmação do que realmente aconteceu naquela parte de Ocarina of Time, já que a Nintendo raramente entra em detalhes justamente para deixar situações marcantes como essa abertas para diversas interpretações.

Não é imprescindível para a trama que se saiba quem ou o que exatamente é o Dark Link, se ele é real ou apenas uma projeção, se é um doppelganger ou uma ilusão. O conceito de doppelganger, inclusive, será explorado novamente em um futuro artigo. O fato é que ele é uma versão corrupta do personagem e, sendo real ou não, é um simulacro de Link. Mas não é o único. The Legend of Zelda é repleto de exemplos de corrupção e no próximo artigo iremos falar sobre o que acontece quando a corrupção atinge não apenas uma pessoa, mas um território inteiro como foi com Lorule e Dark World, além da clássica corrupção estatal.

Um pobre estudante pobre de Jornalismo com fascínio pela cultura holandesa, álcool e Zelda.

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