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Zelda e a noção filosófica de corrupção

Ou como um conceito abstrato influencia toda a franquia

     Nós homens criamos alguns conceitos abstratos tão complexos que nós mesmos não compreendemos completamente. Ideias como decadência e corrupção, entre outras, permeiam o imaginário do ser humano há milênios. Presentes na cultura popular e em diversos tipos de manifestações artístico-culturais, esses conceitos se mesclam à história humana e influenciaram as artes e a cultura desde seus primórdios. Este segundo conceito, em especial, possui um significado bastante complexo e único, sendo inclusive visto de forma errônea muitas vezes e não entendido em sua forma completa.

   

     Antes de prosseguir é preciso, então, responder a ideia principal desse texto: o que é a corrupção? Por que ela se faz tão presente em nossas vidas, mesmo que não entendamos completamente o seu significado? O senso comum trata, na maioria das vezes, apenas da corrupção de Estado, muito conhecida por nós brasileiros e tratado por muitos como o único tipo de corrupção existente. A corrupção estatal é vista pela população como lugar-comum e é uma ideia explorada exaustivamente. Consiste, basicamente, em tirar vantagem de um poder público para benefício privado, deturpando noções e leis estabelecidas pelo Estado. Mas, como foi dito, existem diversos tipos de corrupção, entre elas a moral, a principal forma vista em Zelda.

     A noção de corrupção mais crua se baseia na ideia de se tornar aquilo que outrora se abominava ou desprezava. Ou, na realidade, apenas algo diferente, simplesmente distinto ou oposto das características originais. O termo foi criado pelo famoso filósofo Aristóteles e significa, em tradução do latim, “deterioração”, embora tenha sido usado pelo estudioso de forma diferente, significando “totalmente quebrado” como uma ideia de mudança de características que não necessariamente representam uma decadência. Acredita-se que o filósofo romano Marcus Cícero seria quem deu o sentido de declínio que se tornou praticamente sinônimo do conceito.

     Todos nós somos corruptos. Ou ao menos praticamente todos nós, já que generalizar toda a humanidade é algo no mínimo complicado. A ideia por trás dessa afirmação é simples e parte do próprio preceito etimológico original da palavra. Como já foi estabelecido, o termo corrupção pode tanto significar “deterioração”, como também uma simples mudança de características originais de algo, uma famosa “mudança”. Sendo assim, a corrupção não necessariamente significa algo negativo, ao contrário de como é vista pelas pessoas. Que pessoa, ao longo de sua vida, não mudou seu modo de pensar, de falar, de agir? É quase impensável imaginar alguém que não tenha mudado ao menos um pouco durante a sua existência. Sendo assim, segundo essa lógica, tomando o significado original do termo e por silogismo, é correto afirmar que o passado torna praticamente a todos corruptos. Nós mudamos o tempo todo durante a vida e a corrupção nada mais é do que uma mudança.

     O famoso filosofo e cientista político franco-suiço Jacques Russeau também escreveu acerca da corrupção, para traçar suas ideias a respeito do Estado e de como a sociedade vai moldando o homem aos poucos. Em sua célebre frase “Todo homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”, Russeau afirma que somos todos modelados de forma negativa pelas instituições, que nos tiram a liberdade e nos tornam diferente do que fomos originalmente. Basicamente, para ele, em um Estado de Natureza não existe a maldade, pois o homem nasce como um livro em branco, o convívio com outros homens ou com a cultura é que os transformará no que são. Tomando Adão e Eva como uma alegoria, ele diz que diz que eles eram puros, livres de qualquer pecado inicialmente, porém o fruto do conhecimento os corrompeu. Em outras palavras, Russeau diz que todo bebê humano ainda é um animal, um macaquinho despelado, e que precisa ser corrompido para se tormar humano (aprender a falar, escrever, ler, etc...).

      Passando para a franquia Zelda, temos exemplos práticos do uso do termo em toda ela, tanto negativos quanto positivos. Desde um Skull Kid que, por só querer ter sua solidão sanada acaba sendo possuído pela máscara de Majora, até uma princesa Hilda que por saudosismo não conseguia aceitar o destino que seu continente teve e acaba se tornando a antítese do que deveria ser, passando por diversos outros personagens que foram moldados e se transformaram por pequenas mudanças ou falhas em seus respectivos caráteres.

    Mas não apenas a corrupção moral é vista em Zelda, a corrupção estatal também se faz bastante presente. Por ter uma forte presença de ideias e teorias políticas na série, é inevitável que não se enxergue a presença da corrupção do Estado nos jogos. Seja no Estado autoritário e cruel comandado pelo ditador Ganondorf (inclusive um artigo foi escrito sobre este Estado autoritário, basta clicar aqui para ler), ou mesmo o Estado falho que permite que um monarca (o príncipe de Zelda II) faça uma besteira monumental sendo influenciado pelo conselheiro. Aliás, governos fracassados graças a governantes sem virtu (conceito cunhado pelo cientista político Nicolau Maquiavel e que representa a capacidade natural de um governante administrar seu território) são lugar-comum em The Legend of Zelda. E é justamente sobre esses governos e sobre a influência da noção de decomposição da moral na cultura popular e na franquia que analisaremos neste artigo.

O conceito aplicado na cultura popular

      A ideia de corrupção está presente na cultura popular desde que o homem começou a produzir cultura. Personagens corrompidos podem ser encontrados em milhares de manifestações culturais ou artísticas, desde o cinema, a literatura, a dança, a música e até em outros campos que fogem um pouco deste gênero, como a religião (sendo esta um dos campos pioneiros no uso do conceito, diga-se de passagem). A ideia de corrupção moral permeia diversas religiões e serve até como pilar para a maioria delas.

       A religião cristã é um exemplo disso, o grande “antagonista” da Bíblia, se é que podemos chama-lo assim, é nosso querido Satã. Como é bem conhecido, Satã outrora fora um anjo (a maioria das versões o apontam como um anjo querubim, embora haja discussões sobre isso) que começou a mostrar orgulho excessivo e a desafiar o criador, se achando tão ou mais poderoso do que ele, o que eventualmente levou a uma grande guerra entre seus seguidores e os seguidores de deus. Tendo perdido, Lúcifer cai por fim em desgraça e é condenado ao inferno, junto de seus seguidores. Outrora um anjo, ele se transforma em um monstro cruel e passa a ser a representação da maldade na terra. Lúcifer é um exemplo perfeito de todos os sentidos de corrupção. Na história das religiões judaico-cristã esse anjo querubim entra em guerra para tentar assumir a liderança no céu. Corrompido por sua ambição por poder, ele se torna um simulacro do que fora outrora, mudando de um anjo para um monstro.

     Mas não apenas nas religiões é possível encontrar essa influência. Na realidade, em praticamente qualquer manifestação artístico-cultural vê-se a presença do conceito. Tomando o cinema como exemplo, existem diversos filmes que abordam o tema, diretamente ou indiretamente. Talvez o maior deles seja a popular franquia Star Wars, muito famosa e conhecida por praticamente qualquer pessoa. Nesta série de filmes, a noção de corrupção aparece em seus mais diferentes significados, assim como em Zelda, por exemplo. Tem-se a corrupção clássica, mais conhecida por nós, a do Estado (principalmente na trilogia de prequela, onde aos poucos uma república vai se tornando um império ditatorial), até a moral, exemplificada pelo famoso Lado Negro da Força e principalmente pela deterioração moral de Anakin Skywalker até sua transformação em Darth Vader.

      Darth Vader, por sinal, é a personificação da corrupção em pessoa. Outrora um jedi moralmente integro (embora com algumas características que já iam contra a ordem a qual pertencia e com um enorme ódio dentro de si), foi aos poucos sendo influenciado pelo medo, a raiva e o desespero, até que sem perceber se tornou aquilo que deveria combater. Seu ato maior de putrefação moral foi dizimar, sem mostrar qualquer tipo de remorsos, todo um grupo de crianças em treinamento que o enxergavam com respeito. O ódio acaba por cega-lo a tal ponto que ele ataca até aquela por quem havia deixado se corromper, sua esposa, sendo indiretamente causador de sua morte.

  Curiosamente Anakin Skywalker se corromperia uma vez mais, dessa vez positivamente, ao acabar com o império despótico que ele mesmo ajudou a criar. No final do sexto filme ele ataca e mata o imperador, ao vê-lo ir para cima de seu filho sem piedade após ter falhado em corrompe-lo. Anakin salva seu filho e tem sua então esperada redenção e, ambiguamente, muda de lado duas vezes, se corrompendo de sua própria corrupção. Um personagem bastante complexo, dominado pelo medo, ódio e raiva, como se pode enxergar em todos os seis filmes em que aparece.

      Além de filmes, jogos, livros e artes em modo geral, pode-se encontrar a presença do conceito em histórias populares e folclóricas, tais quais a dos vampiros, por exemplo, que talvez sejam um dos grandes exemplos possíveis. A corrupção na história dos sugadores de sangue passa pelo fato de que, na maioria das versões, eles em algum momento eram humanos que acabaram sendo mordidos e se convertendo em uma criatura igual a que os mordeu, passando a sentir o mesmo desejo por sangue e por morder outras pessoas. E não só vampiros pegam emprestado essa noção na cultura popular, outras criaturas tais como lobisomens, normalmente possuem uma narrativa parecida.

     Como já foi visto, a corrupção pode ser encontrada em praticamente qualquer lugar, em qualquer manifestação humana. Nos cinemas e na literatura ela marca presença há décadas, mas é só de um tempo para cá que ela tem começado a surgir nos jogos eletrônicos, até pelo fato desses serem um tipo de mídia muito mais recente. Exemplos não faltam e o conceito pode ser encontrado sendo usado diretamente ou indiretamente nos mais diversos jogos, das mais diferentes empresas, como vocês verão na parte dois deste artigo. 

Um pobre estudante pobre de Jornalismo com fascínio pela cultura holandesa, álcool e Zelda.

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