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Não é Amor, é Triforce!

O amor e ódio normalmente são os sentimento mais fortes e impulsivos nos seres humanos, talvez por serem antagônicos e complexos, acabam modelando a natureza de nossas vidas. Mas será que isso é sempre algo pessoal ou podemos ter influências externas atuando fortemente nesses sentimentos?

Nas terras hyruleanas, os sentinentos mais intensos podem ser vistos principalmente no "amor" entre zelda e link e no ódio entre link e ganon. Mas como isso pode ser tão intenso entre eles, uma vez que a cada vida eles se encontram ao acaso e já com tantos sentimentos aflorados?

Um exemplo literário é o romance “Romeu e Julieta” de William Shakespeare. No romance, apesar do amor que floresce entre o casal (algo que aconteceu entre as duas pessoas, em suas vidas efêmeras) o sentimento de raiva presente é herdado, criado por um instrumento superior: o ódio mortal entre os Capuleto e Montéquio.

Em Zelda, é sabido que os três principais protagonistas são possuidores dos fragmentos sagrados deixados pelas deusas, sendo de certa forma "regidos" por elas, com a Nayru guiando zelda, Farore encorajando Link enquanto Din empodera Ganondorf. Sendo assim é natural suas vidas estarem destinadas a se cruzar. Entretanto será que isso acontece naturalmente entre as três pessoas em cada uma de suas vidas (como Romeu e Julieta) ou será uma manipulação da Triforce (algo herdado como o ódio entre as famílias?).

Mas como um artefato poderia manipular pessoas?

Tomando como exemplo um dos animes/mangas shoujos mais populares na última década - Sakura Card Captors - um dos pontos centrais da trama é a influência que a magia ou artefatos mágicos causam nas relações dos protagonistas da história, isto é, muitas vezes o amor é mais que um platonismo infantil, podendo ser representado como uma forma de atrair dois seres com magias pareadas. Exemplificado na relação entre a Sakura e seu “amor” Yukito, inicialmente um grande amor infantil platônico que se tornou uma profunda admiração entre os dois no desenrolar da história, ou mesmo o sentimento entre Toyua - Shaoran e os demais protagonistas do elenco, já que com o desenrolar dos eventos, todos acabam ligados magicamente de alguma forma.

De volta a The Legend of Zelda, com o avanço do tempo e dos jogos, o conceito inicial da jornada do herói “inspirada originalmente” no irmão bigodudo de Link foi cada vez mais se distanciando do simples enredo de salvar a princesa ou o reino dos cogumelos, pois em Zelda, sempre o alvo principal foram os artefatos sagrados e não apenas você ir casar com salvar a princesa

Foram criados lugares, lendas, universos e vidas diferentes na maioria das aventuras hyruleanas (Sinto muito Majora’s Mask). Será que Link e Zelda acabam amigos muitas vezes por caráter próprio das encarnações ou teria havido uma mãozinha da predestinação que é de interesse da Triforce?

Um exercício muito prático pode ser pensado na forma de uma ação: empatia, e essa será a palavra chave das relações humanas, hylians, gerudas e zoras, pois o ponto alto e mais contraditório é imaginar que em todas as vidas eles serão amigos, mesmo sendo aliados. No geral, procuramos pessoas de acordo com as nossas convicções, isto é, procuramos em lugares nos quais esperamos encontrar gostos parecidos. Obviamente podemos encontrar pessoas fora desses círculos, mas muitas vezes esses gostos não são encontrados naturalmente. E de certa forma é isso que ocorre na série TLoZ, apesar de ambos serem aliados, na maioria das aventuras do trio, quem rege os acontecimentos é a própria triforce, através dos sentimentos e despertar das emoções dos protagonistas.

Num reino além da vista...

Desde os tempos mais antigos, a triforce foi deixada em Skyloft como uma lembrança das deusas, que, quando UNIDA, concede ao seu portador o poder de realizar tudo o que ele quiser. Assim, mesmo aparentemente inanimado, o artefato tem em sua essência a necessidade de estar, de alguma forma, com suas três partes unidas - seja no Sacred Realm ou nas mão de um único dono.

Então, por ser um artefato sagrado, imagina-se que mesmo quando separada em partes, possua algum poder sutil que crie artifícios para que esteja reunida novamente. Mesmo que as consequências disso sejam uma história escrita com sangue e sonhos premonitórios para que seus portadores identifiquem seus potenciais inimigos e aliados.

O que causaria essa intensidade de três pessoas que mal se conhecem e já se estranham bastante?

Talvez, com Skyward Sword, finalmente tenhamos entendido a origem da relação entre “o” Zelda e a futura princesa de Hyrule: antes mesmo da reaparição de Demise/Ganondorf e da distribuição da Triforce que selaria os destinos dos três portadores e dos sonhos premonitórios de suas reencarnações, já existia uma convivência muito forte e natural entre as duas crianças - assim como Romeu e Julieta.


Qual a melhor forma de declarar o seu amor por alguém? Obviamente é te tacando para a superfície.

É algo a se pensar, essa empatia tão intensa dos "predestinados" mesmo que ambos sejam considerados aliados na luta contra o mal encarnado.

Da mesma forma que a relação natural vista em Skyward Sword, nos deparamos com as pobres "almas abandonadas" de Ocarina of Time e Twilight Princess, Saria e Ilia, e suas relações com Link. De certa forma, são relações muito mais orgânicas e pessoais se comparadas à relação dele com a princesa nesses jogos. Porém, com o tempo e conforme o garoto Link assumo o papel de herói ao longo do jogo, suas amizades são deixadas em segundo plano pela força mágica que une ZeLinDorf e o destino de Hyrule.

Principalmente no caso da pequena Kokiri e sua amizade com o garoto-sem-fada, a relação nasce na infância dentro da vila; passados os sete anos, torna-se um carinho muito forte de sábia com o escolhido. Como paralelo, podemos pensar na relação vista nos Cavaleiros do zodíaco, no qual, além de um sentimento de origem infantil entre Seiya e Saori, ele e os cavaleiros de bronze, assim como os cavaleiros de prata e ouro, estão magicamente atraídos pelo poder maior dos signos ao destino da deusa Atena, encarnada em Saori - assim como os cavaleiros de água são atraídos por Poseidon.

Uma grande exemplo são as conversas com a Sheik no meio da sua jornada, onde cada monólogo dela reflete alguém que o Link conheceu. No Forest Temple, ela fala da nostalgia que era a infância com a Saria assim como no Fire Temple mostra a fraternidade que ele teve com o Darunia e na Ice Cavern aquele "amor de garoto" com a Ruto. Todos esses monólogos, mesmo que ditos pelos olhos de outra pessoa, mostram as mudanças dos sentimentos infantis e puros para a admiração entre o herói e os sábios.


Sheik explicando essa relação entre o Herói e a recém descoberta sábia

É o destino...

Como último efeito de comparação com outras histórias:os sentimentos Luke e Leia em Star Wars: evoluem de uma relação de interesse no papel efêmero de cada um - ele quer se juntar a aliança, ela é da aliança - para uma talvez atração (pelo menos o Luke acha ela interessante como mulher) e, afinal, culmina na ligação maior do destino dos filhos de Skywalker separados aos nascerem. Se consideramos A Força tão capaz de influenciar acontecimentos com a Triforce Hyruleana, o fato casual dos dróides que acompanhavam Leia teram caído em Tattoine (lar de Luke) é comparável ao fato de a irmã de Link ter sido sequestrada erronenamente no lugar de Tetra em Wind Waker.


"Vim salvar a princesa, descobri ela é a minha irmã e o vilão é o meu pai."

Que o caminho do herói…

Na mesma intensidade da empatia de Zelda e Link, temos a nemesidade entre herói e vilão, o mal encarnado, gerado pela maldição de Demise, provavelmente também está geração após geração ligado ao portador da coragem: mesmo antes de despertar como herói, Link criança já sonhava com Ganondorf que ainda também não se revelara vilão. Considerando ainda que, em OoT, o macho Gerudo nasce somente a cada cem anos e “coincidentemente” este é contemporâneo de Link, podemos comparar com a profecia do mundo bruxo “um não pode viver enquanto o outro sobreviver”, que também significa que a existência de um está atrelada à existência do outro.

Em Harry Potter, uma profecia previa a queda do Lorde das Trevas, Voldemort, dizendo que uma criança nascida em breve seria marcada pelo próprio vilão como seu igual e no fim derrotaria o tirano.

“Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima… nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês… e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece… e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver… aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar…”


poderíamos trocas as cores, ajudaria a explicar melhor.

Ao tentar evitar a profecia, o Lorde acabou concretizando-a, pois ao sair em uma busca desenfreada sobre crianças nascidas no final de Julho, entre elas Harry, Voldemort foi atrás dele porque se identificou mais com o garoto mestiço e decidiu que ele seria o maior risco, o que acabou se tornando a realidade, pois escolhendo que criança matar (Neville ou Harry) Voldemort estava escolhendo o garoto que seria O Escolhido, dando-lhe poderes e plantando a semente do nêmesis e do ódio entre os dois - ao assassinas os pais de Harry

Podemos ligar isso a dança entre Link e Ganondorf: ao tentar roubar as Pedras, o vilão causa o despertar de Link em Kokiri Forest; ao tentar evitar que o Gerudo obtivesse a Triforce, Link abre a porta do Sacred Realm e Ganon também consegue entrar. Vemos assim as ações de cada pessoa ligadas pelos destino maior, selado anos antes acima de Skyloft.

 

“Do not think this ends here... The history of light and shadow will be written in blood!”

É importante lembrarmos que as partes separadas da Triforce , mesmo sendo cada uma um atributo - Coragem, Sabedoria e Poder - complementam-se na perfeição das deusas, instrumentos puros e divinos e lembrança da criação de hyrule. Porém, por seus portadores serem mortais, imperfeitos, o conflito é gerado nessa relação de atração e repelência entre esse “triângulo bizarro”

O portador do poder sempre estará em conflito com o da Sabedoria porque aparentemente é impossível aos Hylians - e Gerudos -  conciliar os dois extremos (“poder absoluto corrompe absolutamente”), assim como para os Feiticeiros exilados de Twilight Princess. Por outro lado, Coragem e Sabedoria se complementam para enfrentrar a tirania, o que faz seus portadores sempre unirem-se do mesmo lado da batalha.

Ao mesmo tempo, é extemo (e tedioso) demais assumir que todas essas relações sejam formadas SOMENTE pelo instrumento externo, e que esses três terão sempre essa mesma relação. É um limitador de futuras histórias pensar somente nas contos onde Zelda e Link são amigos e Ganon o vilão. Um exemplo é Twilight Princess, no qual essa métrica é quebrada, pois a amizade entre a princesa e o herói, por serem adultos, não se desenvolve. E que limitaria a entrada de um outro tipo de herói - ou heroína - a novata Linkle no lugar de portador da Coragem.


é sério que eu não sou a melhor amiga dele?

O fato da timeline oficial (eu gosto dela) aceitar a possibilidade do herói derrotado e a possibilidade de em alguns jogos escolher ajudar a Zelda (mesmo que “trave” o seu avanço) nos faz pensar que apesar da disposição manipuladora da Triforce, os acontecimentos que escrevem a história em sangue ou numa luta épica usando a vara de pescar dependem também de decisões individuais - o ódio entre os Montéquio e Capuleto não teria aflorado novamente se os dois jovens não se conhecessem e apaixonassem. Ao mesmo tempo, a história não seria interessante sem o cenário maior do ódio: fossem dois jovens que se apaixonam e podem ficar juntos sem conflito, o drama não existiria e a história não teria sobrevivido tantas gerações.

Então, mesmo servindo de instrumento para o poder superior, o “equilíbrio da Triforce” - que gera a história envolvente e divertida da série - os três portadores ainda detêm seu livre arbítrio - que gera os momentos em que nós, jogadores, tomamos os divertidos e envolventes controles da aventura. Como na saga de George Lucas, o elemento místico abrange tanto o bem quanto o mal, mas necessita da ação de mortais - e no caso de Zelda, felizmente de nós jogadores - para concretizar seus planos em busca de equilíbrio.

 

Eu sou o cara não-tão-novo que escreve textos de Zelda e que fala mal dos controles de movimentos. Faço Matemática na UFRJ e algumas vezes sou encontrado por lá com meu chapéu de Ezlo e tentando convencer pra outras pessoas que The Legend of Zelda é uma série ótima.

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