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Aprendendo com a Lenda: O Mito do Nêmesis

A série “Aprendendo com a Lenda” funciona assim: imagine-se jogando The Legend of Zelda; então você vê algo que levanta uma questão e decide pesquisar mais sobre isso fora do jogo – na internet, em livros, em filmes, discutindo com outras pessoas – e assim acaba tendo uma experiência muito mais completa com o jogo e aprendendo mais sobre vários assuntos.

Então, a cada capítulo de Aprendendo com a Lenda, será exposto o resultado de uma pesquisa com teorias sobre algo que tenha chamado a atenção durante o jogo. O objetivo é tanto enriquecer as discussões entre nós, fãs, sobre elementos da série quanto inspirar todos a, em vez de passarmos batidos por algo curioso, pesquisarmos mais sobre diversos assuntos que são levantados em games, filmes, livros, séries e obras de entretenimento no geral.

As pesquisas são feitas com carinho, porém, é importante dizer, nunca representam nenhuma conclusão absoluta sobre nada. São apenas curiosidades para quem se interessa por saber mais sobre pequenas coisas.

ATENÇÃO: ESTE TEXTO CONTÉM DIVERSOS SPOILERS. Vou tentar sempre avisar antes de algo que possa estragar a surpresa, mas mantenha-se atento.

Aprendendo com a Lenda #1
O Mito do Nêmesis

Quem é o vilão em Majora’s Mask?

(Spoilers grandes sobre Majora’s Mask)

A cena introdutória de Majora’s Mask nos apresenta aquele que será o vilão por quase todo o jogo: Skull Kid, um diabrete humanoide de proporções infantis, habitante da floresta, vestindo, nesta ocasião, uma estranha máscara. Após surpreender Link, que cavalgava por Lost Woods, o monstrinho rouba sua Ocarina e sua montaria e foge, o que nos leva à terra de Termina, onde está a aventura do jogo.

Explorando Termina, Link descobre que as rotinas de diversos habitantes do mundo estão problemáticas por conta das travessuras do Skull Kid, incluindo o destino do próprio mundo, fadado à destruição pela queda da lua, atraída para o solo pelos poderes que a misteriosa máscara conferiu ao diabrete. Ao longo de todo o jogo, vamos resolvendo os problemas causados por essas travessuras e juntando forças que nos permitam impedir a queda do satélite e partir para o confronto final contra o malfeitor.

Chegando a hora do embate final, porém, descobrimos que... O inimigo agora é outro. Ironicamente, enquanto usava a máscara do demônio, o Skull Kid era usado por esse demônio aprisionado na máscara, a Majora. Dotado de poderes maléficos, a Majora habitava a mente do diabrete e usava as frustrações do pequeno como condutor de seus desejos destrutivos.

Assim, o confronto mesmo é contra a Majora, o verdadeiro vilão do jogo. Ao final, somos levados a sentir compaixão pelo Skull Kid, que, embora motivado por desejos de vingança para com os habitantes de Termina, parece não fazer ideia do verdadeiro mal que estava causando ao libertar os poderes da máscara.

Reprisar essa história me lembrou de diversas outras. Entre elas, uma em especial: Matrix.

Quem é o vilão em Matrix?

(Spoilers moderados sobre a trilogia Matrix)

No primeiro episódio da trilogia Matrix, vemos a jornada do Sr. Anderson para se libertar do simulacro que é a Matrix, enquanto é caçado pelos incansáveis agentes, responsáveis por manter a ordem no mundo virtual. Ao final, despertando como Neo, o herói enfrenta e destrói Smith, o principal dos agentes e, aparentemente, o vilão do filme – assim como o Skull Kid parece o vilão no início de Majora’s Mask.

Em Reloaded, o segundo filme, contudo, vemos o retorno de Smith e entendemos o que ele era na mitologia do mundo: agentes são espécies de antivírus do mundo virtual, encarregados de caçar anomalias – ou seja, pessoas que não estão “se comportando de acordo com o padrão” – e corrigi-las ou exterminá-las de vez. Eles não são humanos logados no meio virtual como Neo e os outros – são programas que só existem dentro da Matrix.

Acontece que, ao ser destruído por Neo no primeiro episódio, Smith sofreu uma espécie de bug inédito: parte do código especial do herói se fundiu ao seu código destroçado. Isso lhe garantiu certos poderes e então, em vez de o programa Smith ser destruído, ele reconstruiu-se a si mesmo e se tornou independente do programa-chefe da Matrix, sendo inclusive caçado pelos outros agentes. Ainda assim, ele apresenta uma obsessão irracional em destruir Neo.

Já no capítulo final da trilogia, Revolutions, tanto Neo quanto nós temos plena consciência de que o verdadeiro vilão da história são as máquinas, que criaram a Matrix – incluindo os agentes – e mantêm os humanos presos a ela. De novo, um paralelo com o verdadeiro vilão de Majora’s ser o demônio, que apenas usava o Skull Kid. Enquanto Neo busca uma forma de derrotar as máquinas no mundo real, dentro da Matrix o programa Smith começa a possuir todos os habitantes, como um vírus infectando outros programas e arquivos, tornando-os parte de seu exército para destruir Neo.

Sem saber, o vírus Smith está lenta e progressivamente destruindo a Matrix, pois todos os humanos e programas ligados a ela, infectados pelo vírus, começam a agir fora do padrão e a deixar que o mundo virtual se transforme num caos. Mais uma vez, relaciono com a situação do Skull Kid, encaminhando o mundo para a destruição.

Não vou contar o final do filme. Se você não assistiu, use esses Spoilers para se situar melhor na história e experimentar a conclusão por si mesmo. O que importa agora é que, em certo momento, o Oráculo explica a Neo o porquê da obsessão de Smith em persegui-lo:

ORÁCULO: Ele é você. O seu oposto, o seu negativo, o resultado da equação tentando se balancear.

NEO: E se eu não conseguir detê-lo?

ORÁCULO: De uma maneira ou de outra, Neo, esta guerra vai acabar. Hoje à noite, o futuro de ambos os mundos está nas suas mãos... ou nas mãos dele.

Trocando para termos comuns em outras obras, Smith é como o gêmeo mau de Neo; seu Reverso ou sua Sombra – na psicologia jungiana, as sombras são todos os ‘eus’ paralelos ao nosso ‘eu’ principal, como se fossem aquilo que escolhemos não ser (se você é uma pessoa que acorda cedo todos os dias, existe um ‘eu’ de você que é uma sombra, que escolhe por dormir até tarde todos os dias). 

Assim, os caminhos de Neo e Smith estão, de certa forma, destinados a se cruzarem – porque são na verdade o mesmo caminho, apenas vindo de direções opostas, mas que vão se encontrar e chocar de frente em algum ponto, conforme eles mesmos percebem, em um momento do filme:

Existe ainda outro nome para esse tipo de relação entre dois personagens: o Nêmesis.

A deusa Nêmesis

Na mitologia grega, Nêmesis é uma deusa da segunda geração, filha da deusa da noite Nix (existem outras versões sobre a origem dela, mas essa é uma bem recorrente). Vive no Olimpo e é encarregada de abater e censurar os excessos nas almas dos mortais, chamado, em grego, de húbris

Húbris quer dizer arrogância resultante do orgulho excessivo. Quem expressa húbris costuma perder a noção de próprios limites, algo como “olhem para mim, vejam como sou melhor; vejam como posso desrespeitar as leis dos homens, abusar das leis divinas e não ser punido, porque sou poderoso”. Numa tradução para nossos termos atuais do gueto, eu diria que “fulano está com húbris” é o equivalente a dizer “fulano está se achando”.

Em grego antigo, a palavra nêmesis é originalmente derivada do verbo distribuir – pois ela distribui sinas aos mortais de acordo com seus excessos, a fim de equilibrar o mundo.

A evolução do termo Nêmesis

(Spoilers moderados sobre O Velho Testamento e quaisquer seriados bíblicos / filmes de páscoa que você possa estar assistindo)

O sentido de Nêmesis evoluiu ao longo dos anos devido à função da deusa e foi ganhando outros significados como ‘indignação’ ou ‘castigo’, aproximando-se da ideia ocidental de karma.

A história se repete em diversas mitologias além da grega.  O mito conhecido como A Torre, ou A Torre de Babel, conta de uma cidade de humanos politicamente poderosos que decidiram unir suas forças para construir uma torre tão alta que pudesse alcançar os deuses no céu e dominar todos os outros humanos na terra. Eram liderados pelo soberano Nimrod, O Rebelde, um matador.

Contudo, uma intervenção divina impede que terminem a construção da torre. Em algumas versões é dito que a intervenção foi um poder dos deuses que fez com que os homens começassem a falar em diversas línguas de modo que não conseguiam mais se entender e, assim, jamais conseguiram concluir a obra.

Outra versão diz que um poderoso raio foi enviado sobre a torre e os que nela trabalhavam correram amedrontados sem direção, acabando por espalharem-se pelo mundo.

Em todos os casos vemos exemplos da ação da “ordem que mantém o universo equilibrado”, ou seja, a deusa Nêmesis. Entende-se, assim, que o termo “Nêmesis” faz referência às forças que controlam a harmonia que deve existir o mundo. Quando algo gera uma desigualdade muito grande para “um dos dois lados da balança”, a força inevitável de Nêmesis dá origem a algo que possa restaurar essa ordem.

Por isso arqui-inimigos ou rivais são chamados nêmesis.

 

Nêmesis com sentido de ‘Arqui-inimigos’

(Spoilers grandes sobre Matrix e Harry Potter a seguir)

Por isso dizemos que Smith e Neo são Nêmesis um do outro. “O resultado da equação tentando se balancear”, conforme o Oráculo. No final do primeiro filme, quando o agente Smith acua Anderson e ameaça destruir todos os planos da resistência, a “ordem que mantém o universo equilibrado” trata de fazer Anderson-Neo perceber que têm poderes adormecidos. Quando Neo desperta seus poderes, essa mesma ordem maior providencia ao acaso que ele, ao derrotar Smith, derrote-o de uma forma que partilhe seu código com o agente e torne-o seu Nêmesis.

Situação similar ocorre em Harry Potter: quando Voldemort ouve a profecia de que uma criança nascida em Julho vai ser capaz de destruí-lo no futuro, parte para exterminar todos os bebês bruxos. Devido ao acaso, ao tentar matar o bebê Harry, transfere a ele parte de seus poderes e torna-o seu Nêmesis. “Um não pode viver enquanto o outro também estiver vivo”.

Da mesma forma que Neo e Smith, Harry e Voldemort se tornam Nêmesis cujos destinos estão inevitavelmente cruzados, cada um dependente das ações do outro.

Talvez a autora de Harry Potter tenha se inspirado em outra história bem antiga e famosa: Moisés e a libertação dos escravos no Egito Antigo. Origem histórica do nosso feriado da Páscoa, o conto foi recentemente (1998) adaptado no desenho-musical O Príncipe do Egito, pela Dreamworks.

Na história, o faraó (uma espécie de rei-supremo, temido como um deus na terra) do Egito tem um sonho profético no qual uma criança nascida entre os escravos cresce e toma-lhe o trono. Temendo que isso acontecesse, o faraó ordena que todos os bebês e crianças nascidos de escravos sejam mortos (muito parecido com Voldemort, não?). Uma das mães, contudo, esconde seu recém-nascido num cesto e o deposita no rio Nilo. O cesto é levado pela correnteza, chegando até onde a filha do faraó tomava banho e, ao ver a criança, decide criá-la como seu próprio filho.

O bebê adotado, chamado Moisés, cresce entre a nobreza, tendo acesso a informações além do acesso do povo comum (um privilégio causado acidentalmente pelas próprias ações do faraó, similar à transferência de poderes que ocorre quando Voldemort tenta matar o bebê Harry ou quando Neo detrói Smith ao final do primeiro filme). Moisés comove-se com os abusos de poder cometidos pelo faraó contra os escravos – sem saber que ele mesmo faz parte do povo escravizado. Por fim [SPOILERS sobre o Velho Testamento e o filme O Príncipe do Egito], é o escolhido pelo deus de Abraão para libertar o povo escravo – e assim, torna-se o nêmesis com quem o faraó sonhara e que, sem saber, ele mesmo criou.

Também é interessante notar que, assim como o Oráculo diz para Neo sobre Smith, Voldemort também é o oposto de Harry. Os dois tiveram vidas extremamente parecidas quando eram crianças – sofrendo na mão de trouxas –, os dois tinham níveis acima da média de habilidade em duelos – o que fazia com que tivessem poucos amigos. Mas... Voldemort optou por focar-se no que o tornava diferente dos outros, excluir-se e dominar pelo medo, enquanto Harry escolheu por buscar semelhanças com os outros e compartilhar o que sabia com os amigos.

Além disso, tanto Nimrod quanto o faraó, Smith e Voldemort apresentam o excesso de orgulho na alma (“Posso fazer o que quero, pois sou poderoso”). Também encontramos esse mesmo comportamento no Skull Kid, quando está dominado pela máscara da Majora.

 

No jogo Bioshock Infinite [SPOILERS FORTES À FRENTE] temos um efeito semelhante - Booker é levado para resgatar uma garota de uma cidade flutuante em pleno ano de 1912 (é verdade!). Em determinado ponto, você encontra o profeta Comstock, que está por trás das ideologias racistas da cidade de Columbia, justificado por uma busca utópica à perfeição e purificação humana. Com o desenrolar dos eventos, você descobre que na verdade Comstock é nada mais que o próprio Booker (!) originado em um determinado momento por uma escolha diferente, oposta à escolha do Booker com o qual você joga (!!!), gerando uma espécie de linha alternativa (de timelines nós entendemos bem não é mesmo). No fim, o Booker atual deriva de uma dessas timelines alternativas, trazido à "principal" (!!!!!!!!!) e existem infinitos Bookers de diversas timelines que se originaram em diversas escolhas diferentes (!!!!!!!!!).

Se todos os exemplos apresentados até então tinham pessoas diferentes, Booker deWitt e Comstock de Bioshock Infinite são, literalmente, a mesma pessoa. Porém, o princípio é o mesmo - as decisões que fizeram após suas experiências pessoais levaram para destinos totalmente diferentes. (Já rolou alguma teoria que o Skull Kid é o Link de alguma outra timeline?)

 

Link e o Skull Kid como Nêmesis

(Spoilers grandes sobre Ocarina of Time e Majora’s Mask a seguir)

Também podemos ver a relação do Nêmesis em Majora’s Mask, entre Link e o Skull Kid. Além da húbris do Skull Kid, também entre eles existe a similaridade que os torna opostos.

No início de Majora’s Mask, é dito que nosso herói partiu numa jornada “secreta e pessoal, em busca de um amado e inestimável amigo”, o qual muitos entendem como sendo Navi. Isso porque após cumprir seu destino como herói do tempo, os amigos que fez ao longo de Ocarina of Time tiveram que retornar às suas rotinas – Saria, Darunia e Ruto viraram Sábios; Zelda também, além de ser a princesa; Link não se sente mais à vontade vivendo no Bosque Kokiri pois além de todos esses amigos de jornada, sua maior companheira, a fada Navi, também teve que partir.

Assim, Link e o Skull Kid estariam sofrendo do mesmo Pathos, ou seja, estaria sob efeito do mesmo sofrimento – o medo de que tenham ficado sem amigos.  A diferença entre eles, assim como entre Harry e Voldemort, é que Link opta por partir em busca, enquanto o Skull Kid escolhe o caminho da revolta.

Conforme jogamos Majora’s Mask, vamos juntando as informações dispostas e, no fim, entendemos que houve um tempo no qual os Quatro Gigantes, espíritos protetores de Termina, viviam em meio aos mortais, auxiliando-os e ensinando-os. Entre todos, mantinham uma amizade especial com o Skull Kid. Um dia, porém, os gigantes decidiram que era hora de deixarem o convívio mortal e permitirem aos terminianos lidarem por si com seus próprios problemas.

Mas o Skull Kid, imaturo, não entendeu o destino maior que governava os espíritos, e sentiu-se abandonado pelos seus amigos.

O sentimento de perda, sem ser tratado, logo se transformou em revolta. O diabrete passou a pregar peças nas pessoas de Termina, mas por conta das confusões que estava causando – e como ele não atendia aos pedidos de que parasse – foi expulso do convívio em sociedade. Assim a revolta se tornou rancor.

Quando conheceu as fadas irmãs Tatl e Tael, passou a assaltar viajantes incautos e, numa dessas, roubou a máscara da Majora do Vendedor de Máscaras Felizes.

Aqui, podemos concluir pela história de fundo do jogo que o demônio aprisionado no objeto percebeu o rancor no coração do pequeno e planejou alimentar-se disso a fim de aumentar seus próprios poderes.

Logo, o Skull Kid descobriu que, enquanto usava a máscara, podia fazer uso da sua raiva para realizar pequenas travessuras mágicas. Com o tempo, a gravidade dos atos foram aumentando e ele causava problemas a praticamente todo aquele que parecesse feliz com algo. Por fim, atraiu a lua para cair sobre o mundo, a fim de causar sua destruição total.

Notemos aqui a semelhança entre o Skull Kid e o agente Smith como aparece em Matrix Reloaded e Revolutions:

- Partem de uma frustração: O diabrete “abandonado” pelos amigos; o programa “antivírus” Smith perde sua função ao ser derrotado por Neo.

- Motivam-se por um novo poder descoberto: O Skull Kid encontra a máscara; Smith descobre que os fragmentos do código de Neo impregnados nele lhe conferem o poder de infectar outros habitantes da Matrix.

- Na busca por vingança – e eu diria, por um sentido em suas existências – acabam, de uma forma até um pouco ingênua, provocando a eventual destruição do mundo: A lua atraída para a Terra parece ser um plano da Majora implantado na mente do Skull, aproveitando seus desejos infantis de vingança contra os gigantes, algo como “já que vocês foram embora, veja o que eu faço com o mundo que vocês deveriam tomar conta”; o programa Smith, ao sair infectando a Matrix inteira para reunir um exército contra Neo, acaba transformando-a num mundo estéril.

- Em suas jornadas de antagonistas, acabam forçando o herói a desenvolver seus poderes: [SPOILER ENORME] Por causa da infecção na Matrix, Neo consegue uma trégua com as máquinas; o rastro de travessuras deixado pelo Skull Kid leva Link até os locais de repouso dos gigantes e o próprio fato de o diabrete trazer Link para Termina acaba sendo o que salva esse mundo, no fim.

Essa última condição é um dos fatores que reforça sua condição como Nêmesis – por meio de suas ações e do efeito delas nos caminhos dos heróis, ambos mantém o equilíbrio no mundo e contribuem para o final “feliz”.

O destino dos Nêmesis

É claro que estendendo um pouco o círculo da discussão também podemos ver Link e Ganon como Nêmesis arqui-inimigos – sempre que Ganon surge trazendo o mal, uma encarnação do Link paralelamente desperta para o papel de herói. Em Ocarina of Time, ainda, as ações de ambos estão conectadas. Temendo que Ganondorf se apodere da Triforça, o garoto adentra o Reino Sagrado, mas é aí que o vilão consegue entrar também; mas isso faz com Link tenha acesso à arma que pode derrota-lo de vez.

Porém, sob uma abordagem mais psicológica, o Skull Kid é o vilão que mais funciona como “gêmeo mau” do herói da série, exatamente por ambos estarem passando pelo mesmo drama, mas seguirem por caminhos diferentes em sua busca por alívio – Link se mantém aberto para novas amizades, enquanto o diabrete se fecha do mundo, assim como Voldemort.

Um detalhe que diferencia os Nêmesis usados como exemplo aqui é que, em Harry Potter, não sentimos compaixão por Voldemort, pois ele é de fato o vilão principal. Mesmo que nascido da frustração, ele tem em si a intenção de fazer o mal e tem plena consciência do que está fazendo. Em diversos momentos, Harry parece sentir algo como pena do que o vilão se tornou em sua busca obsessiva por imortalidade, mas isso não chega a causar compaixão e abrir um arco para a redenção.

Já em Matrix, a impressão é de que Neo termina não sentindo nada com relação a Smith – ele entende a limitação que o torna obsessivo e compreende que ele faz parte do caminho que deve trilhar. Ou pode ser uma soma da falta de expressão do Keanu Reeves com uma falha de roteiro.

Em Majora’s Mask, somos levados a sentir compaixão do Skull Kid, percebendo que ele não passa de uma criança imatura que não soube como lidar com o próprio problema. De certa forma, parece que ele armou tudo como uma forma de “jogo” para o Link resolver, como uma criança sem ter com quem brincar e que acaba arrancando patas de um inseto para se divertir...

O jogo cria essa identificação entre nós e o Skull Kid por meio de muitos elementos que, espalhados pela aventura, tornam isso em algo natural. O diabrete aparece no início, causa o problema e depois só nos encontramos brevemente com ele antes do final. O contato que temos com o Skull Kid é por meio dos relatos dos habitantes de Termina e nas confusões que ele deixou para trás. Como ouvimos sempre relatos de outras pessoas, a tendência é ouvirmos depoimentos raivosos ou às vezes de pena – por parte dos gigantes. Ao mesmo tempo em que encontramos o rastro do nosso nêmesis em todos os lugares, sabemos que ele está isolado no alto da Torre do Relógio.

Terminada a aventura, a impressão é que o diabrete, ao mesmo tempo em que servia aos propósitos maléficos da Majoram também servia ao propósito maior da deusa Nêmesis - ou da Deusa / Poder responsável por equilíbrar as coisas no universo Zelda.

Se o Skull Kid não tivesse encontrado a máscara, não teria trazido Link para Termina e o garoto não teria (1) derrotado o demônio aprisionado, devolvendo a máscara ao Vendedor que, esperamos, vai tomar mais cuidado com ela a partir de então e (2) superado seu próprio dilema da falta de amizade, o que poderia levar não só ele, mas Hyrule e todos os outros reinos a um verdadeiro destino terrível, talvez nas mãos de Ganon – lembrando que é a ausência de Link que origina os eventos de Wind Waker.

Não sabemos o que acontece com Link após Majora’s Mask – se retorna para Hyrule ou se fica vagando por outros reinos (há aquela teoria de que ele já está morto nesta aventura, mas enfim). É certo que a experiência em Termina foi importante pelo menos para essa encarnação do herói, e talvez seja o que tenha permitido a ele reencarnar futuramente – ou voltar como o espírito Hero’s Shade que auxilia o novo herói em Twilight Princess. 

Colunista desalinhado e adulto não-praticante. Divido as fases da minha vida de acordo com meu jogo Zelda favorito em cada época.

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