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A Lenda de Ganondorf – O Homem e o Mito

Quando o vilão é antes de tudo uma vítima

    Ele é do mal. Mas... será mesmo? Por anos Ganondorf foi visto como a personificação de tudo que há de ruim no universo de The Legend of Zelda. Foi só alguns anos atrás, com o lançamento de Wind Waker e principalmente posteriormente, com Skyward Sword, que essa visão começou a ser revista e o rei dos Gerudos passou a ser avaliado com mais condescendência. Embora ainda seja apontado como um megalomaníaco sedento por poder, de algum tempo para cá tem surgido uma faceta inédita de Ganondorf e muitos passaram a o encarar como apenas mais uma vítima, condicionado a se transformar em um demônio pela sociedade opressora em que vivia e, principalmente, pela influência de Demise.

    Ganondorf era o único homem em uma tribo de mulheres guerreiras. Não se sabe muito sobre sua infância ou adolescência, mas presume-se que tenha sido criado severamente por suas mães adotivas: as bruxas Twinrova. Por ser o único homem nascido em um século entre os Gerudos, já nasceu predestinado a ser o rei de seu povo, recebendo portanto um treinamento de nível militar, conhecendo as mais diversas artes marciais e aprendendo a manejar os mais diferentes tipos de armas desde a mais tenra infância. A responsabilidade de ser um rei desde criança, aliado a selvagem criação que obteve e ao fato de ser diferente de todo o seu povo, foram aos poucos corrompendo seu pequeno coraçãozinho e especula-se que tenha sido nessa época que recebeu as primeiras visitas da influência de Demise, provavelmente em sonhos.[1]

O verdadeiro vilão

    Desde 2011, quando Skyward Sword foi lançado, tornou-se quase impossível falar da origem de Ganondorf sem ao menos citar Demise. Demise, rei dos demônios e, esse sim, a encarnação do puro mal, é liberado de seu selo ao final do jogo, mas mesmo assim acaba sendo derrotado por Link. Entretanto, antes de morrer (na verdade ser absorvido pela Master Sword), o demônio joga uma maldição em que, apesar de seu corpo físico ser destruído, o seu ódio viajaria e perduraria ao longo dos séculos, perseguindo os descendentes e as encarnações do herói. Esse ódio atingiria e influenciaria o pequeno Ganondorf, acabando por criar sua outra persona: Ganon.

    Ganon e Demise são e não são a mesma pessoa. Ganon e Ganondorf são e não são a mesma pessoa. Por muito tempo pensou-se que o homem e a besta eram complementares, foi só recentemente que se começou a perceber que o homem pode ter vindo antes do monstro. Bom, é justamente a influência do ódio da entidade conhecida por Demise (selado em Skyward Sword, muitos anos antes da primeira aparição cronológica de Ganon, que se deu em Ocarina of Time) que transforma o homem, Ganondorf, no monstro, Ganon. Como já foi dito, a raiva que o pequeno Ganondorf sentia do mundo acaba por corrompe-lo e a transforma-lo em uma sombra de si mesmo, totalmente moldado pelo ódio. A corrupção chega a tal ponto em que em alguns jogos onde Ganon se encontra presente, sequer há menção a Ganondorf, provavelmente com a consciência totalmente apagada no emaranhado de raiva que marca a alma do javali ultra crescido. Parte daí, portanto, a afirmação de que Ganondorf e Ganon são e não são a mesma pessoa. Ambos dividem o mesmo corpo (Ganon é oficialmente a transformação bestial dele) e, em alguns jogos (Twilight Princess por exemplo) a consciência do homem ainda se encontra presente no monstro. Mas não em todos, já que na maioria dos Zeldas apenas a besta aparece, sem qualquer sinal do humano.

    Mas mesmo em sua versão humana, Ganondorf está longe de ser um santo. Ter sido uma vítima das circunstâncias não justifica as atrocidades que fez em jogos como Wind Waker e principalmente Ocarina of Time. No primeiro deles, buscando encontrar a reencarnação da princesa Zelda, realizou um sequestro maciço de todas as meninas de Hyrule, enquanto no segundo, seu jogo de estreia, foi muito além, realizando um golpe de Estado, instalando um governo despótico e trazendo o caos para a terra.

    Uma das características mais interessantes de Ganondorf (e que será tema de um artigo futuro) é ser um gigantesco manipulador, controlador, um verdadeiro puppet master, quase sempre agindo pelas sombras, sem se expor (uma exceção feita talvez apenas em Ocarina of Time, no qual o seu golpe de Estado o faz presente durante todo o jogo). Em alguns jogos ele usa “marionetes” como Cia em Hyrule Warriors (por mais que HW não seja canon da timeline de Zelda) ou Zant em Twilight Princess, revelando-se apenas quando está próximo de concretizar o seu objetivo. Dessa forma, ele mantém-se protegido, arquitetando tudo escondido, usando alguma outra pessoa para fazer, intencionalmente ou não, parte do seu trabalho, esperando com calma a hora de surgir com a sua tenebrosa risada maligna, como bom vilão que é. Como em um espetáculo de marionetes, Ganondorf controla outros personagens enquanto se mantém sem ser visto, algo muito forte principalmente em Hyrule Warriors em que sua influência acaba por corromper Cia, que vai aos poucos perseguindo Link e libertando o gerudo sem que se dê conta.

O rei dos reis

    Pelo que se vê nos jogos, Hyrule sempre foi uma monarquia com um rei absoluto que concentrava os três poderes existentes (legislativo, executivo e judiciário). Uma monarquia incontestável, absolutista e hereditária, na qual Zelda ocupa o posto de princesa ou rainha quase sempre. Entretanto, apesar de o rei concentrar os três poderes, o reino sempre se mostrou próspero e não sofria com um governo despótico ou tirânico, ao menos até o golpe de Estado de Ganondorf. Em Ocarina of Time o rei dos Gerudos assume o trono de Hyrule à força e, sedento por poder, passa a governar o continente de uma forma autoritária, despótica e totalitária. O governo de Ganondorf é marcado por repressões absurdas e pela falta de liberdade, sem falar de uma crise social e uma corrupção sem precedentes, na qual parte da população some e dá lugar a mortos-vivos. Seu estilo de governo é bastante semelhante, inclusive, a governos totalitários reais como a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stálin e fictícios, como o mundo presente no romance “1984” de George Orwell (marcado por um violento regime de controle e terror). O tirano se torna então o rei dos reis, rei dos Gerudos por natureza, rei de Hyrule por força. Até sua própria arrogância o derrubar, sete anos depois. Ganondorf torna-se, então, Ozymandias.

    Ozymandias é um poema (um soneto, para ser mais preciso) escrito por Percy Bysshe Shelley e publicado em 1818. Pequeno, porém bastante profundo, o soneto trata de temas como arrogância e decadência, ao falar sobre um viajante que encontra as ruínas de um outrora poderoso império. Ozymandias era o nome grego do faraó Ramsés II, conhecido por ter reinado durante alguns dos períodos mais prósperos do Egito Antigo. E é justamente essa a crítica que o poema faz, ao analisar como o glorioso governo de Ramsés II acabou-se em ruínas decadentes, irrelevantes, totalmente destruídas pelo tempo. O rei que se julgava mais poderoso do que deuses, um rei de todos os reis, acabou se tornando um nada, com sua imagem apodrecendo ao vento do deserto. Semelhante ao que acontece com Ganondorf, graças a sua ganância e arrogância.

    Ao tomar o poder em um golpe de Estado, o Gerudo se enche de confiança e ganância, passando a se considerar invencível e insuperável. De fato, ninguém conseguiu opor-se a ele durante sete anos, uma quantidade de tempo considerável, até Link ressurgir das cinzas após ter permanecido todo este tempo “hibernando”. Link, então, consegue finalmente superar o soberano e sela-lo com a ajuda dos sábios (ao menos em duas das três timelines que se desenrolam após Ocarina of Time, já que em uma delas ele falha), acabando com o período de glória de Ganondorf e de ruína para o resto de Hyrule. Assim, a própria arrogância de Ganondorf se torna a sua ruína. Ao se transformar no rei dos reis e reinar sem interferências ou desafios por sete anos, ele acaba dando um passo maior do que a própria perna se julgando um deus invencível. Tudo o que construiu, todo o seu trabalho, toda a sua glória, acabam-se em ruínas destinadas a sumir pelo tempo, semelhante a Ramsés II.

Maquiavel e o monstro

    É injusto culpar apenas Ganondorf pela ruína do continente durante o seu governo, já que a população de Hyrule e principalmente a monarquia absolutista liberal possuem também grande parcela de culpa. E quem explica isso é o pensador italiano Nicolau Maquiavel. Filósofo político que viveu na Florença do século XV, Maquiavel ficou famoso mundialmente após sua morte por ter tido seu nome transformado em um sinônimo para maldade, no adjetivo “maquiavélico”, graças a uma interpretação simplista de sua obra em que afirma que “os fins justificam os meios”. Porém seu magnus-opus “O Princípe”, traz uma análise interessantíssima de política, muito avançada para um homem que vivia no início do renascimento. E é justamente neste livro que Maquiavel traça o conceito que nos interessa aqui, pois se aplica justamente ao governo hyruleano: a ideia de virtu.

    Virtu é um conceito abstrato que, apesar do nome sugerir, possui um significado diferente (porém semelhante) ao de virtude. Para Maquiavel virtu seria a capacidade natural de um governante administrar seu território. Um governante com virtu seria um bom governante, embora não seja necessariamente uma boa pessoa e, em oposto, um governante com virtude talvez não seja necessariamente um bom governante. Entretanto, por ser algo inerente a cada indivíduo, a virtu não é transmissível hereditariamente, daí justamente o grande problema das monarquias, para Maquiavel. Como nas monarquias prevalece a hereditariedade, com reis subindo ao trono por serem descendentes de reis anteriores, a administração de seus territórios torna-se prejudicada, visto que um soberano pode não ter as habilidades administrativas que o seu antecessor possuía. E diversos jogos da série The Legend of Zelda retratam isso, começando por Zelda II: Adventure of Link.

    Em Adventure of Link o jogador se depara com uma situação inusitada e um enredo bem diferente do que foi visto no jogo anterior da série. O príncipe de Hyrule, irmão da princesa Zelda, corrompido e influenciado pelo conselheiro do rei, coloca a princesa em um sono eterno graças a sua ambição pela Triforce. O príncipe é um claro exemplo da falta de virtu e de como o regime que controlava Hyrule já prejudicava o continente mesmo sem Ganondorf (basta lembrar de outros eventos como a guerra civil pela Triforce). Assim, apesar do governo despótico e cruel do ruivo, a própria família real original já fazia besteiras por si só e prejudicava seu povo (um povo marcado pela apatia, já que uma criança de 10 anos tem que chamar toda a responsabilidade para si). Em suma, os governos que se sucederam no continente foram tão fracos e instáveis quanto o de Ganondorf que, no final das contas, talvez nem tenha governado tão mal assim. Além do mais, talvez ele tenha sido um herói, tentando impedir a terra de sucumbir perante um maníaco sociopata: Link.

O verdadeiro herói da história

    Bom, agora que já vimos que o gerudo deu um golpe de Estado para acabar com um governo absolutista falho por si só e que todos os seus atos podem ter sido influenciados simplesmente por um ator externo, chega ao ponto final do artigo: seria Ganondorf mesmo um vilão? Ou será que, na verdade, ele estaria apenas tentando salvar Hyrule de um psicopata muito mais perigoso? Apesar de quase todos os jogos nos colocar na pele de Link contra Ganondorf, que assume o papel de antagonista, há alguns pontos que merecem ser vistos antes de assumi-lo como símbolo máximo de vilania só por ser o oposto de Link.

    Para começar, apesar de em quase todos os jogos o personagem ser jogável ser Link e o antagonista Ganondorf, é importante ressaltar que tudo é visto pelo ponto de vista do suposto herói. Como nós assumimos a função de Link no jogo, nós nos tornamos ele, tudo o que vemos ou sabemos são coisas que o protagonista presencia, o que torna complicado tomar o julgamento que ele faz do antagonista como um maníaco louco. É bom ressaltar que sociopatas dificilmente se assumem como tal e procuram sempre culpar deus e o mundo por seus próprios atos. E bem, bastam alguns minutos jogando qualquer jogo da série Zelda e já fica bastante claro que estamos encarnando um perigoso menino que entra na casa das pessoas sem ser convidado, as rouba e quebra mobílias em sua ávida busca por dinheiro. Isso sem falar em sua eterna perseguição as pobres galinhas. Como então, confiar nos julgamentos feitos por este psicopata mirim?

    Definitivamente, Ganondorf está longe de ser um santo, mas talvez não seja esse poço de maldade que muitos acham. Sob um ambiente de pressão constante, treinamento pesado e diferenças físicas claras de seus semelhantes, qualquer um poderia ser tentado pela influência do verdadeiro vilão da história: Demise. A influência de Demise é tão forte que, inclusive, Ghirahim aceita Ganondorf como seu mestre em Hyrule Warriors, deixando implícita essa relação (apesar de HW ser um spin-off e portanto não entrar oficialmente na timeline). Além disso, a própria Hyrule já vivia em um governo absoluto falho muito antes do gerudo instalar a sua ditadura, enfrentando crises como guerra civis e corrupção de um de seus príncipes. Ruim por ruim, é inegável que o ruivo pelo menos teve habilidade administrativa suficiente para se tornar o rei supremo, o rei dos reis. Até, claro, que um adolescente mudo de roupa verde com tendência a psicopatia viesse restaurar a monarquia absolutista anterior só pelo prazer de faze-lo.

    A verdade é que não há como saber realmente quem é o grande vilão da história, se é o gerudo ruivo que instala uma ditadura despótica, manipula terceiros para realizarem atividades por ele e sequestra dezenas de pequenas garotinhas, ou se é o mudo que maltrata animais, rouba, dá prejuízo para seus conterrâneos e rouba órgãos por aí. De fato, ao se observar com calma e cuidado, chega-se a uma conclusão inevitável: não há inocente em The Legend of Zelda. Todos são culpados, desde o protagonista e o antagonista, até a princesa desleixada que dá nome ao jogo, cujo governo apático permite a subida do antagonista ao poder. A vida, assim como Zelda, é muito complicada para ser classificada sob uma ótica maniqueísta, sob um simples preto no branco. Nem tudo na série é só bom ou mal, oito ou oitenta. Ou, ao menos, assim é até agora, pois nunca se sabe o que o futuro nos reserva com o vindouro The Legend of Zelda U. Até lá, resta apenas aguardar pela oportunidade de que algum dia seja possível assumir o controle de Ganondorf em algum jogo e dar algumas merecidas surras nesta loiro de aparência andrógina e orelhas de elfo.

 

Fontes:

- Wikipedia.
- Google (imagens).
- Hyrule Hystory.
- Watchmen.
- Ozymandias – Pierce Bysshe Shelley.
- Política I - Teoria Política – Curso da PUC-Rio.
- O Príncipe - Nicolau Maquiavel.

 

 

 

 

 

 

 


[1] Muita coisa sobre a infância de Ganondorf é especulação, pois quase nada foi confirmado pela Nintendo

Um pobre estudante pobre de Jornalismo com fascínio pela cultura holandesa, álcool e Zelda.

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