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Sex Link - A inexplorada sexualidade em Zelda

Observação: Spoilers sobre os jogos The Legend of Zelda, The Adventure of Link, A Link to the Past e Link’s Awakening.

Nota: artigo mais com viés imaginativo do que realmente tentando afirmar verdades.   

Algumas definições

Segundo a Psicologia do desenvolvimento – estudo científico sobre as mudanças do comportamento humano em função da idade de uma pessoa –, a adolescência tem seu começo marcado pelo início do amadurecimento sexual do indivíduo, ou seja, pela puberdade.

Emoções exaltantes, mudanças no comportamento e um repentino interesse no sexo oposto e – por que não dizer – até no mesmo sexo. Culpa dos hormônios que agora circulam aos montes na corrente sanguínea, loucos para mexerem com as cabeças dos pobres adolescentes. É nessa fase do desenvolvimento humano que surgem os primeiros indícios de maturação sexual e do florescer da própria sexualidade em si, que vinha se construindo desde os primeiros estágios da infância.

E é, também, justamente nessa fase da vida que Link, nosso herói, se encontra em todos os jogos da franquia até então, variando apenas a idade, mas sempre em algum momento da adolescência. Como um adolescente que ele é, nada mais natural, portanto, deduzir que ele esteja passando por todas as mudanças citadas acima. Mas por que, então, Link não tem sexualidade? Ou, pelo menos, por que ela não é representada?

Link é assexuado?

Buscando responder às perguntas acima, eis que proponho a explicação de Eiji Aonuma, produtor responsável pela série, quando perguntado sobre o personagem em uma entrevista:

When a player is playing a Zelda game, my desire is for the player to truly become Link – that's why we named him Link, so the player is linked to the game and to the experience.

Em tradução livre: “Quando o jogador está jogando um jogo Zelda, eu quero que o jogador realmente seja Link – é por isso que nós o chamamos de Link (elo, do inglês link), para que o jogador seja ligado ao jogo e à experiência.”

Ou seja, Link é a representação do jogador no jogo. Assim sendo, Link é também a personalidade do jogador e a voz do jogador. Isso explica o porquê do Link não ter personalidade definida (além de ser o portador da Triforça da Coragem) nem voz.

Seguindo o mesmo raciocínio, fica evidente que é por isso, também, que Link não deve ter sua sexualidade explicitada. Link, sendo a projeção do jogador na aventura, é, de certa forma, sexualmente orientado de acordo com a sexualidade de quem joga. Por isso que (tirando o relacionamento entre Link e Zelda em Skyward Sword) a história dos jogos não foca nos relacionamentos amorosos de Link, apesar de sugerir algumas possibilidades; isso é bom, pois deixa nas mãos do jogador a decisão de explorar ou não essas brechas e evidencia mais uma vez a intenção de dar ao jogador o poder de se projetar dentro do jogo.

Link e Zelda em Skyward Sword: uma relação além da amizade?

Agora deixando de lado os argumentos subjetivos quanto à criação da personagem, focaremos nos argumentos objetivos que possam indicar tais brechas citadas acima ou alguma marca de sexualidade, analisando, por ora, apenas os quatro primeiros jogos antes da transição para o mundo 3D.

O primeiro Link: The Legend of Zelda e The Adventure of Link

Lá em meados de 1980, quando o primeiro The Legend of Zelda saiu para NES, Zelda se tratava basicamente de uma estória sobre um guerreiro que salvava uma donzela em perigo de monstros do mal. Nos padrões de contos de fadas heroicos medievais, o jogo nos apresenta Link, o herói, num papel tipicamente masculino, e Zelda, automaticamente associada ao papel da donzela em perigo, num papel tipicamente feminino. Numa época em que videogame era tido como um brinquedo voltado principalmente para o público masculino, talvez a ideia tenha parecido natural para a Nintendo.

O comum, portanto, era formar a dupla Link e Zelda para compor o par romântico da aventura. Além disso, os fãs não tiveram muita escolha: a não ser que Link quisesse encontrar seu par romântico no prestativo sábio que vive numa caverna, a própria Zelda era a única chance de um possível relacionamento romântico.

Link e Old Man: na Roma Antiga esta história poderia ter acabado de outra forma, talvez...

Entretanto, apesar da história seguir os moldes de um clássico conto de cavalaria medieval, o herói não fica com a donzela no fim da aventura. É óbvio que não é regra, mas parte disso talvez seja porque Link teria, no mínimo, 10 anos (!) de idade quando derrotou Ganon e salvou Zelda. Época em que ainda estaria saindo da infância para entrar na adolescência, e provavelmente teria poucos interesses sexuais. Zelda, aparentemente tendo a mesma idade (Impa era sua babá, afinal), também parece não ter interesses sexuais em Link.

Mas a coisa muda em Zelda II: The Adventure of Link. Seis anos após salvar Hyrule e se tornar um herói reconhecido, Link é agora um jovem adolescente de dezesseis anos em plena puberdade. O amadurecimento sexual que estaria começando a se desenvolver no jogo anterior agora já está praticamente completo. Zelda, que também estaria mais madura e poderia formar um par com Link, infelizmente não dá as caras no jogo.

Porém eis que surge Zelda I, a “Bela Adormecida”, nova donzela que precisa ser ajudada pelo herói. Após mais uma jornada pelos confins mais tenebrosos de Hyrule, Link salva o reino mais uma vez e desperta Zelda I de seu sono eterno. Nas cenas finais do jogo, temos os primeiros indícios concretos de qualquer tipo de relacionamento entre Link e Zelda: ao abraçar seu salvador, a cortina desce, escondendo um possível beijo entre os dois. Apesar de não deixar nada explícito, já foi o bastante para muitos jogadores concluírem que houve, de fato, um relacionamento entre os dois após o encerramento do jogo. The Adventure of Link pode ser considerado por muito a ovelha negra da série, mas é inegável que várias novidades, muitas das quais perduraram até os jogos mais atuais, dentre elas o suposto caso amoroso entre o herói e a princesa, surgiram nesse jogo.

Observação: vale comentar sobre as “polêmicas” Healing Ladies, mulheres de vestido vermelho que abrigam Link em suas casas ao longo da jornada. Somando à aparência suspeita um diálogo sugestivo, muitos fãs especularam sobre uma possível vida promíscua de nosso herói durante suas estadias nas cidades de Hyrule.

Princesa Zelda e as Healing Ladies.

O segundo Link: A Link to the Past e Link’s Awakening

Lançado para Super NES em 1991, o terceiro jogo da franquia apresentou um novo Link e uma nova Zelda, além de uma coleção de novos personagens. Graças ao maior poder de processamento, muitas possibilidades surgiram no horizonte dos desenvolvedores, que agora poderiam abordar mais os relacionamentos entre os personagens e tornar Hyrule um reino mais vivo e movimentado.

No mesmo molde dos jogos anteriores, apenas expandindo o rol de donzelas indefesas para 7 (incluindo Zelda), A Link to the Past coloca novamente o jogador na busca para derrotar o mal. Apesar de Link e Zelda não terem suas idades confirmadas em nenhum momento do jogo, é certo afirmar – com base nas artworks oficiais e em fatos do próprio jogo - que ambos aparentam estar entre o fim da infância e o meio da adolescência, ou seja, no desabrochar da puberdade. Entretanto, nosso Link de A Link to the Past não dá margem para qualquer especulação sobre uma possível intenção amorosa.

Parte disso pode ser por causa de sua natureza ingênua, explicitada na forma da sua contraparte do Dark World (Mundo das Trevas). Nessa versão corrompida do Light World (Mundo da Luz) os indivíduos que não possuem a mágica Moon Pearl (Pérola Lunar) são transformados de acordo com as características que prevalecem em seu espírito. No caso de Link, na forma de coelho rosa.

Link se transforma em um coelho rosa quando vai para o Dark World sem a Moon Pearl.

Uma curiosidade: outro indício pode ser encontrado no último capítulo do mangá de Shotaro Ishinomori, lançado em 1992 e baseado na história do jogo. Numa das últimas páginas se pode ver o seguinte diálogo entre Zelda e Link, tempos depois de sua condecoração ao grau de Mestre dos Cavaleiros de Hyrule:

Link é um insensível.

Seria Link um soldado tão focado no seu trabalho que acabou esquecendo até dos seus próprios sentimentos?

Mas aqui vale uma observação: as informações contidas nos mangás e quadrinhos de Zelda não são cânones, ou seja, não podem ser consideradas regras gerais para toda a série. Muitas vezes, inclusive, informações contidas em mídias extra-oficiais (digo, mídia que não é produzida e supervisionada pela equipe da Nintendo responsável pelos jogos) muitas vezes entra em conflito com informações encontradas diretamente nos jogos, sendo, nesses casos, a informação oficial a considerada mais relevante. Aponto neste artigo uma passagem do mangá relevante apenas para o enriquecimento da leitura, apresentando novos pontos de vistas e possibilidades, que não devem ser encarados como verdade.

Ressalto aqui, ainda, que o próprio Eiji Aonuma chegou a dizer, durante uma entrevista, que fica contente ao ver “vãos” contidos nos jogos sendo explicados posteriormente por meio dos trabalhos criativos dos mangakás.

Outro detalhe importante é a tal ligação misteriosa entre Link e Zelda. Mesmo antes do encontro entre os dois, o Tio do Link, em seus derradeiros momentos, solta a frase:

Tio do Link diz suas últimas palavras antes de partir: "Zelda é a sua...". Minha o quê?!

Muito se especulou sobre os possíveis significados dessa frase, e mesmo analisando a original em japonês o mistério perdurou. Hoje a possibilidade mais aceita é a de que a frase completa seria, provavelmente, “Zelda is your destiny”, mas ainda há os que acreditam na possibilidade de Link e Zelda serem irmãos (o que não parece ser muito factível, de acordo com as próprias informações do jogo e de fontes não-canônicas; e provavelmente todo mundo assistiu Star Wars quase uma década antes).

Por fim, após a derrota de Ganon e a restauração de Hyrule, o jogo deixa incerto o destino de Link e Zelda. Aparentemente a princesa volta a viver feliz com seu pai, o Rei de Hyrule, e Link volta para casa para viver junto de seu tio, que fora ressuscitado pelo poder da Triforça. Nada indica um possível relacionamento entre os dois no futuro, mas também não há nada que impeça uma eventual união. Talvez se interpretarmos o “destino” dito pelo tio através de um olhar mais romântico, talvez como querendo dizer que além de ser o destino dele salvá-la, também seria seu destino ficar com ela, como uma profecia sobre almas gêmeas, teríamos um ponto a favor.

Muito sobre os sentimentos de Link permaneceu oculto até Link’s Awakening, lançado para Game Boy em 1993, chegar às lojas.

Artwork de Link's Awakening

Com certeza o jogo da franquia com maior teor sentimental até agora, Link’s Awakening veio esclarecendo (ou não) diversos pontos sobre o que Link sentia (ou não) por Zelda. Continuando a aventura tempos após o desfecho da saga anterior, Link está agora em busca de sua terra natal depois de treinar suas habilidades em extensas viagens por terras longínquas. Ficou-se sabido, após o lançamento da linha do tempo oficial no Hyrule Historia que tais aventuras são de fato os acontecimentos ocorridos na série Oracle. É natural, portanto, presumir que Link esteja agora bem mais maduro e menos ingênuo do que antes.

Antes, porém, um ponto crucial que deve ser levado em conta ao analisar a relação entre Link e Marin: o fato do jogo todo ser um sonho derivado tanto dos sentimentos do Wind Fish (Peixe-Vento) quanto do próprio Link e, portanto, nada ter acontecido realmente.

Voltando à história do jogo: logo após naufragar durante uma intensa tempestade, Link encontra-se arrastado até uma terra desconhecida chamada Koholint, onde é encontrado inconsciente por uma jovem chamada Marin. Ao despertar, confunde, num vislumbre, a jovem por Zelda.

Link identifica a pessoa de Zelda em Marin. Além disso, Tarin, pai de Marin, assemelha-se bastante com seu tio. Teria isso alguma relação com os sentimentos internos de Link?

Sendo a criação de toda a ilha, incluindo seus habitantes, fruto do sonho do Wind Fish, que por sua vez é influenciado pela presença de Link, não é exagero imaginar que Marin poderia ser uma representação dos sentimentos de Link. Indo ainda mais fundo, é possível dizer até que Marin é a representação dos sentimentos reprimidos de Link por Zelda e pelo possível desejo de encontrar um par igual.

Explico: Link, portador da virtude da coragem, provavelmente encontrou-se no marasmo após a paz em Hyrule ser reestabelecida. Um fato que reforça a hipótese é a partida de Link para outras terras em busca de aventuras, tempos depois. Se analisássemos esta questão antes do lançamento da série Oracle, poderíamos imaginar que Link encarna em Marin o desejo de ser amado por Zelda, visto que não há evidências de qualquer relacionamento amoroso entre os dois em A Link to the Past. Porém, como o fim da série Oracle - lançada anos depos - dá a entender que há uma clara aproximação entre ele e Zelda no fim da jornada, fica subentendido que pode ter existido uma relação mais íntima entre os dois.

Mas algo pode tê-lo feito repensar sua relação com Zelda. Possivelmente o fato de Zelda ter sido quase sempre, até então, um fardo para carregar nas costas, constantemente sendo motivo de preocupação ao ser raptada diversas vezes ao longo de A Link to the Past e Oracle of Ages/Oracle of Seasons. Talvez ele quisesse uma companheira parecida com ele, que o acompanhasse de verdade em suas aventuras. Isso tudo não é absurdo se observarmos que Link vive agora plena adolescência, fase típica de suas crises emocionais, ainda mais numa situação como a de Link, onde ele provavelmente se vê pressionado a relacionar-se com Zelda após todo o sacrifício que ele fez por ela e por Hyrule. É possível, até, que a Zelda não tenha sido uma boa companheira por se dedicar demais ao seu papel de governante de Hyrule, o que é justificável para a personagem, mas um desgosto para Link.

Talvez Link quisesse, pelo menos uma vez, ser salvo e viver uma adolescência, digamos, mais saudável e livre de compromissos. Isso explicaria, por exemplo, o fato de Marin ser muito mais ativa na história, comparada com a Zelda que antes só desempenhara papéis dominantemente passivos.

À esquerda, a ilustração da versão alemã do manual oficial; à direita, a versão americana. Enquanto uma é representada com uma aparência mais adulta e sensual, a outra é representada como uma figura mais juvenil.

E não é preciso ir muito longe para buscar evidências que pesem a favor de uma relação amorosa entre Link e Marin. Em diversos momentos do jogo ela dá a entender que sente algo por ele, como quando ela diz que gostaria de saber tudo sobre ele, ou quando ela quase confessa algo extremamente pessoal ao dizer “Uhh... I don't  know how to say this... but...” (Tradução livre: “Uh... Eu não sei como dizer isso... mas...”), antes de ser interrompida por Tarin em determinado momento do jogo. Além, claro, dos diversos momentos que ambos passam juntos, sendo os mais significativos os momentos a sós, seja observando o mar sentados num coqueiro ou admirando o céu do topo de uma colina.

E o mesmo vale para Link, que pela primeira vez deixa escapar alguma dica sobre um possível sentimento. O jogo chega até a brincar com o fato, dizendo “You got Marin! Is this your big chance?" (Tradução livre: “Você pegou a Marin! Será a sua grande chance?”) quando Link “pega” Marin como se fosse um item em determinada parte da aventura.

Link "pega" Marin: hoje em dia, na época do "politicamente correto", coisas assim jamais aconteceriam...

Enfim, é inegável a importância da personagem para o desenvolvimento de Link como pessoa. Chega a ser triste a separação brusca entre os dois, logo quando tudo parecia correr tão bem para ele. Mas a vida é assim mesmo, e como a Marin que segue seus sonhos como uma gaivota mar afora, Link deve seguir a sua vida em busca de seus verdadeiros sentimentos.

Entre razões e emoções, há espaço para todos

Como o objetivo do artigo foi discorrer apenas sobre a questão da sexualidade em Zelda – e, sobretudo, sobre a sexualidade de Link – , foquei apenas nas mudanças comportamentais e emocionais típicas do período da puberdade humana, entendendo por “humana” todas as raças de inteligência equivalente que habitam o mundo da franquia e que de alguma forma interagem com o jogador. E, claro, presumindo que a fisiologia hylian seja igual à humana.

Também tratei apenas dos quatro primeiros jogos por conta do limite do texto. Mas o estudo elaborado ao longo do artigo não para por aqui: se você quiser, pode continuar a reflexão por conta própria ao longo de todos os jogos; conteúdo é o que não falta. No futuro, talvez, eu mesmo venha com novos artigos sobre o tema.

Enfim, é interessante notar como Link pode ser uma personagem versátil nas mãos dos desenvolvedores criativos da Nintendo. Mesmo eu tendo abordado a questão da sexualidade de Link através de um viés bastante especulativo, é plausível acreditar em tudo isso graças ao embasamento que os jogos oferecem. É fascinante pensarmos nisso como um recurso para ajudar a contar as estórias dos jogos (principalmente em Link’s Awakening, que é o jogo mais expressivo dos primeiros Zeldas 2D), pois perceberemos como os detalhes estão lá, basta querermos usá-los ou não para enriquecermos a nossa experiência enquanto jogadores.

Graças a essas brechas colocadas pelos desenvolvedores que hoje em dia tantos fãs se dividem entre os que torcem pelo casal Link e Zelda, pelos que torcem por Link e Marin ou até pelos que torcem apenas para a aventura de Link, sem se importar em se relacionar com outras personagens. Não há problema: há espaço para todos.

Tchay!

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